Vista aerea de Póvoa de Lanhoso (Nossa Senhora do Amparo)
DGT - Direcao-Geral do Territorio · CC BY 4.0
Braga · CULTURA

Póvoa de Lanhoso: concertinas e eiras de granito

Onde o som dos foles ecoa no Largo do Eirado e a memória têxtil vive nas varandas de ferro forjado

5623 hab.
188.8 m alt.

O que ver e fazer em Póvoa de Lanhoso (Nossa Senhora do Amparo)

Património classificado

  • IIPHospital da Misericórdia da Póvoa de Lanhoso
  • MIPTheatro Club da Póvoa de Lanhoso

Produtos com Denominação de Origem

Festas e romarias em Póvoa de Lanhoso

Março
Festa de São José Dias 14 a 22 festa popular
ARTIGO

Artigo completo sobre Póvoa de Lanhoso: concertinas e eiras de granito

Onde o som dos foles ecoa no Largo do Eirado e a memória têxtil vive nas varandas de ferro forjado

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O som chega antes da imagem. Uma concertina desdobra-se na Rua da Igreja, os foles a respirar contra a parede do Café Regional, e as notas ficam presas no canto do balcão como se a própria pedra as quisesse guardar. É sexta-feira ao fim da tarde, e o Zé do Pipo puxa o fole com a naturalidade de quem abre a torneira da cerveja. Os copos de vinho verde — do Ave, com aquele travo a linho — pousam sobre toalhas de plástico enquanto as mãos batem o compasso na madeira gasta. A vila tem pouco mais de cinco mil e seiscentas almas, mas nesta hora parece que todas cabem no café, atraídas pelo cheiro a caldo verde que escapa da cozinha e pelo murmúrio de quem se conhece há três gerações.

O largo onde se pisava milho

O Largo do Eirado conserva uma eira comunitária que, até aos anos sessenta, servia de palco a um ritual que hoje só os mais velhos lembram: agricultores pisavam o milho ao som da gaita, os pés descalços sobre o grão seco, o pó dourado a subir em nuvens contra a luz rasante. Hoje a eira está silenciosa, mas o chão de lajes polidas mantém uma lisura que os sapatos reconhecem — é aquele bocado liso no meio da calçada irregular, onde as crianças ainda correm de olhos fechados. Ao lado, o Pelourinho de 1752 ergue-se como sempre, a coluna de granito coroada com um capitel que o líquen vai tingindo de verde-musgo, lenta como o tempo que cá passa.

Granito, ferro forjado e o cheiro a lã nova

Caminhar pela Rua Direita é sentir o granito fresco nas costas quando o sol baixa. As casas exibem varandas de ferro forjado e, aqui e ali, escudos de armas lavrados na pedra — marcas de quando a lã movia dinheiro. Póvoa chegou a ter quinze fábricas, e os antigos armazéns, com as portas largas para os fardos, hoje vendem mantas que ainda cheiram a lanolina. As mãos tocam a trama espessa, sentem o peso do tecido — é aquele peso que aquece os ossos no inverno, que nenhum poliéster imita. Num desses espaços, o museu etnográfico guarda fusos que ainda têm o brilho do uso, e fotografias onde as operárias olham para a câmara como quem desafia o tempo.

A Capela de São Sebastião aparece quase de surpresa, encaixada entre fachadas mais altas. E ao fundo, a Igreja Matriz impõe a sua fachada setecentista, flanqueada por dois cruzeiros graníticos que marcam o adro como sentinelas. A padroeira — invocada como protectora dos cristãos — dá nome à freguesia e à procissão de Maio, quando os andores de flores do campo sobem a colina sob o odor a urze e a cera de vela.

O sabor do colorau e da brasa

A mesa é aqui um assunto sério. As papas de milho com feijoca chegam servidas sobre pão de centeio, o calor húmido a subir do prato como nevoeiro. A rojada à moda de Lanhoso — temperada com colorau e vinho branco — tem aquele tom alaranjado que tinge os dedos e perfuma a cozinha durante dois dias. Nos serões festivos, o cabrito assado na brasa é o protagonista, a gordura a crepitar enquanto o pai António vai contando as histórias do costume. Para sobremesa, os bolinhos de noz e as tortas de amêndoa acompanham-se com um galo de vinho tinto, aquele que a D. Idalina faz na garrafa de três litros.

Os produtos da região — a Carne Barrosã e o Mel das Terras Altas — surgem nos restaurantes em pratos que sabem a quinta, e na feira mensal, ao primeiro domingo, é possível encontrar mel cristalizado em frascos que ainda têm o número da colmeia escrito com caneta.

Pedalar sobre a linha que já não existe

A oeste, o Rio Ave serpenteia entre levadas que alimentam moinhos onde ainda moem centeio. A Ecopista do Ave, construída sobre a antiga linha, oferece um percurso até Fafe que atravessa a ponte de Vilela — onde se diz que o Diabo apareceu ao mestre d'obras — e túneis onde o ar fica gelado mesmo em Agosto. Parar junto a uma levada para um piquenique — com pão de centeio, queijo da serra e uvas do Ave — é o tipo de luxo que não exige reserva, só uma toalha de xadrez e paciência para os mosquitos.

A sul, a Serra do Carvalho abre trilhos que sobem à Pedra Bela, de onde se avista o Gerês num dia limpo. É ali que os miúdos vão buscar urzes para o Santíssimo, e onde os namorados se beijam ao som do vento que passa entre os carvalhos.

Março, São José e o cheiro a louça a lavar

A Festa de São José, a 19 de Março, é o grande marcador do calendário. A missa solene dá lugar à procissão, a música popular ao arraial gastronómico, e a vila enche-se de um burburinho que contrasta com a quietude habitual. É quando os emigrantes voltam, quando as casas dos pais voltam a cheirar a roupa a ferro e a sopa de couves. Em Maio, a Romaria de Nossa Senhora do Amparo traz os andores com flores que se apanham de manhã, ainda com orvalho, e o Hino da Padroeira ecoa no adro como um murmúrio colectivo. A banda filarmónica, fundada em 1867, abre os desfiles com o Hino da Póvoa, os metais a brilharem ao sol enquanto os passos marciais ressoam na calçada como corações a bater.

No Largo do Eirado, quando a concertina se cala e o último copo pousa no balcão, fica o cheiro — colorau, lenha, granito húmido — e aquela lisura estranha sob os pés, a eira polida por décadas de milho e de gente, que nenhum outro chão no Minho replica.

Dados de interesse

Distrito
Braga
DICOFRE
030919
Arquetipo
CULTURA
Tier
vip

Habitabilidade e Serviços

Dados-chave para viver ou teletrabalhar

2023
ConectividadeFibra + 5G
TransporteComboio a 9.4 km
SaúdeHospital no concelho
EducaçãoEscola secundária e básica
Habitação~922 €/m² compra · 3.81 €/m² rendaAcessível
Clima15.3°C média anual · 1697 mm/ano

Fontes: INE, ANACOM, SNS, DGEEC, IPMA

ADN da Aldeia

50
Romance
55
Familia
40
Fotogenia
55
Gastronomia
20
Natureza
30
Historia

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Perguntas frequentes sobre Póvoa de Lanhoso (Nossa Senhora do Amparo)

Onde fica Póvoa de Lanhoso (Nossa Senhora do Amparo)?

Póvoa de Lanhoso (Nossa Senhora do Amparo) é uma freguesia do concelho de Póvoa de Lanhoso, distrito de Braga, Portugal. Coordenadas: 41.5778°N, -8.2693°W.

Quantos habitantes tem Póvoa de Lanhoso (Nossa Senhora do Amparo)?

Póvoa de Lanhoso (Nossa Senhora do Amparo) tem 5623 habitantes, segundo os dados dos Censos.

O que ver em Póvoa de Lanhoso (Nossa Senhora do Amparo)?

Em Póvoa de Lanhoso (Nossa Senhora do Amparo) pode visitar Hospital da Misericórdia da Póvoa de Lanhoso, Theatro Club da Póvoa de Lanhoso. A região também é conhecida pelos seus produtos com denominação de origem.

Qual é a altitude de Póvoa de Lanhoso (Nossa Senhora do Amparo)?

Póvoa de Lanhoso (Nossa Senhora do Amparo) situa-se a uma altitude média de 188.8 metros acima do nível do mar, no distrito de Braga.

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