Artigo completo sobre São João de Rei: Granito, Vinho Verde e Vida Lenta
São João de Rei, na Póvoa de Lanhoso, Braga, mantém viva a tradição dos Vinhos Verdes, Carne Barrosã DOP e Mel das Terras Altas do Minho entre 365 habitant
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O cheiro a lenha mistura-se com o aroma do pão que a vizinha acabou de tirar do forno. Nas ruas de São João de Rei, o granito das casas guarda o calor da tarde como quem guarda segredo, enquanto o sino da igreja marca as horas com a preguiça de quem não tem relógio. Aqui, a 276 metros de altitude, entre os vales do Minho, trezentas e sessenta e cinco pessoas mantêm vivo um quotidiano que resiste ao esvaziamento do interior - e não é por falta de oportunidades de ir embora.
Onde a Vinha Encontra a Montanha
A freguesia está lá mesmo no meio da região dos Vinhos Verdes, mas não penses que isso quer dizer que há provas ou visitas guiadas. As encostas que descem em socalcos guardam videiras que aproveitam a humidade atlântica filtrada pelas serras próximas. O solo granítico dá aos vinhos uma mineralidade que se sente ao primeiro gole - acidez viva, frescura que lembra a água das nascentes que os velhos ainda vão buscar com garrafões de cinco litros. Nas adegas particulares, alguns produtores mantêm a tradição de vinificar em pequena escala, sem rótulo comercial. É vinho para a mesa de casa e para oferecer ao vizinho quando ele traz um cabaz de couves.
A Carne Barrosã DOP, que toda a gente associa às terras altas de Trás-os-Montes, cá aparece nos pratos de quem tem um primo criador. A carne, marmoreada e de sabor intenso, chega às mesas locais em guisados que a tia Amélia deixa no lume desde as nove da manhã. O Mel das Terras Altas do Minho DOP completa o quadro - mel escuro, denso, com notas de castanheiro e urze, colhido nos apiários que pontilham os lameiros. O Zé do Cabaril vende-o em garrafões de plástico, mas é mel que podia competir com os melhores das lojas da cidade.
Celebrar São José
A Festa de São José é o que marca o calendário. Não há fogo-de-artifício que se veja - o orçamento não dá para isso - mas há procissão que percorre as ruas estreitas, os cânticos na igreja, a missa solene seguida do convívio no adro. As mulheres trazem bolos de mel em tabuleiros de alumínio, as crianças correm entre os adultos, e por algumas horas a freguesia parece ter o dobro dos habitantes. É quando o Filipe, que foi para Lisboa há vinte anos, aparece com a mulher e os filhos que só falam lisboeta.
Geometria do Quotidiano
Com quarenta e três jovens e setenta e três idosos, São João de Rei espelha o desequilíbrio demográfico do interior minhoto. Mas os números não contam a história completa. Não dizem que o António, com 78 anos, ainda vai ao campo de manhã cedinho, nem que a escola primária fechou há dez anos mas a professora continua a viver na aldeia. A densidade de 66,85 habitantes por quilómetro quadrado é um valor que, em abstrato, nada diz sobre o modo como as casas se agrupam em núcleos, deixando entre si campos cultivados, bosques de carvalhos, caminhos de terra batida onde ainda se vêem os sulcos deixados pelos tratores dos anos 70.
Os três alojamentos registados - duas moradias e um quarto na casa da D. Fernanda - não fazem desta uma freguesia turística. Quem aqui pernoita vem procurar precisamente isso: a ausência de circuito, de roteiro obrigatório, de multidões. Vem pelo silêncio denso das noites em que só se ouvem os cães lá ao fundo, pelas manhãs em que o nevoeiro sobe do vale como um rio invertido e o café do Zé abre às sete e meia em ponto.
A luz da tarde recorta os telhados contra o verde dos montes. Uma porta range, alguém chama pelo Piloto (que é um cão, não um avião), o fumo sobe direito de uma chaminé. São João de Rei não promete espectáculo - oferece apenas a textura áspera do granito, o sabor mineral do vinho verde, o peso concreto de um lugar que existe sem pedir licença a ninguém.