Artigo completo sobre Sobradelo da Goma: pão de forno e moinhos de água
Freguesia minhota onde o forno comunitário ainda assa e a ribeira move engenhos centenários
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O fumo sobe lento do forno comunitário, espesso e perfumado a lenha de carvalho. É quinta-feira de manhã em Sobradelo da Goma e o pão assa como sempre assou — mãos que amassam a massa com a mesma cadência das gerações anteriores, o calor que aquece o rosto de quem se aproxima da boca de pedra. Ao fundo, a ribeira da Goma murmura entre as margens estreitas, traçando o vale onde se estendem vinhas de vinho verde e oliveiras de tronco retorcido. A 271 metros de altitude, entre a suavidade das colinas minhotas, esta freguesia de 695 habitantes respira ao ritmo das estações e das colheitas.
Onde a pedra testemunha
A Igreja Matriz de São José ergue-se no centro da aldeia, a cal branca contrastando com o granito escuro das ombreiras. Construída em 1896, substituiu uma ermida setecentista que já não dava cabimento aos fiéis. No interior, a luz filtrada pelas janelas altas desenha sombras alongadas sobre os bancos de madeira gasta pelo uso. A poucos passos, a capela de São Sebastião guarda ex-votos de promessas cumpridas - pratos de ferro com braços e pernas pintados, ofertas de quem escapou à guerra ou à doença. A capela de Nossa Senhora da Saúde, isolada no monte a 450 metros de altitude, atrai romeiros no segundo domingo de setembro. Sobem o caminho de terra batida como fizeram em 1756, quando o bispo de Braga mandou erguer o santuário para pedir fim à peste que dizimava os rebanhos.
Mas é a ponte medieval sobre a ribeira da Goma que melhor conta a história deste lugar. Datada de 1325, consta nas Inquirições de D. Afonso IV como "ponti de Sobradelo". As pedras do arco central, cobertas de musgo na face voltada a norte, sustentam o peso de tractores desde que, em 1963, a CM Póvoa de Lanhoso abriu a estrada municipal 557. Ao lado, o moinho de água ainda funciona - construído em 1878 pela família Costa, a roda de madeira gira quando há caudal suficiente. É dos poucos no concelho que ainda mói milho biológico para a Avicola da Veiga. Joaquim Costa, de 78 anos, neto do último moleiro profissional, explica o engenho como quem recita uma oração: "A roda tem de molhar 12 dentes, não mais. É a lei do moinho."
Sabores de forno e fumeiro
O cabrito assado no forno de lenha é assunto sério em Sobradelo da Goma. A receita vem de 1920, quando Maria da Conceição, cozinheira das festas, começou a temperar a carne com alho de Trás-os-Montes e colorau de Vermil. A carne assa durante 4 horas à temperatura do forno que atinge 300ºC quando a lenha de carvalho está no auge. Serve-se com batatas da variedade "desiree", plantadas nos campos junto à Goma, e arroz de forno no pote de barro de Nossa Senhora da Saúde, herdado de geração em geração.
As papas de sarrabulho são servidas na Festa de S. José desde 1946, quando o padre António Miranda mandou fazer 50 litros para alimentar os peregrinos que vinham a pé de Vieira do Minho. O sangue coagulado é misturado com farinha de milho da antiga moagem de Caldas das Taipas, servido fumegante em tigelas de barro de Sobradelo - a olaria local que tem forno desde 1832.
Nos doces, destacam-se os "bolinhos de cigarro" - nome que vêm de 1918, quando as mulheres os moldavam no papel de cigarro "Tricana" que os soldados traziam da Grande Guerra. E em cada mesa, o vinho verde DOC produzido nas 18 hectares de vinha da cooperativa Agrícola de Póvoa de Lanhoso - o "Loureiro" que fermenta em cubas de lagar de granito com 200 anos.
Entre vinhas e barragem
Os caminhos rurais serpenteiam entre parcelas de vinha registadas desde 1758 no Cadastro de Sebastião José de Carvalho e Melo. O solo xistoso cobre-se de ervas que cheiram a hortelã silvestre quando pisadas - a mesma que os pastores usavam para afastar as moscas dos rebanhos transumantes que passavam aqui até 1974.
A barragem das Andorinhas, inaugurada em 1961 com 42 metros de altura, espelha o céu onde nidificam 23 casais de garças-reais. Aqui vêm pescadores de cana procurar barbos de boca pequena - espécie introduzida em 1983 que atinge agora os 40 cm. Os carvalhos e sobreiros que pontuam os montes abrigam melros e tordos, e ao entardecer ouve-se o canto rouco das rãs-de-ventre-branco que voltaram após a recuperação da ribeira em 1998.
Março em festa
A Festa de São José, a 19 de março, transforma a freguesia desde 1897, quando o padre João Baptista mandou construir o primeiro andor. A procissão sai da igreja às 15h30, ao som de 12 foguetes que marcam o início do cortejo. O andor de 180 quilos é carregado por 24 homens em turnos de 100 metros - um sistema que vem de 1932, quando o antigo andor de madeira partiu ao meio na subida do Calvário.
À noite, o arraial instala-se na Dr. José Pires de Lima - rua aberta em 1958 que substituiu o antigo caminho de burros. São 14 casetas onde se assam 600 sardinhas vindas de Matosinhos, compradas na lota no próprio dia. A concertina de José Carlos - 5ª geração de músicos - toca "verdes são os campos" às 22h30, seguida das cantigas ao desafio que duram até à 1h da manhã. Os versos improvisados registam-se num caderno que o bibliotecário municipal recolhe desde 2001 para o arquivo sonoro do concelho.
Ao cair da tarde, quando o último raio de sol aquece o granito da ponte e a roda do moinho pára por falta de água, fica o som da ribeira - constante, discreto, como uma respiração que nunca se interrompe. É esse murmúrio que acompanha quem parte, e que chama quem um dia regressar.