Artigo completo sobre Taíde: vinhas, granito e fumo nos telhados do Ave
Entre a planície do Ave e a Serra da Cabreira, uma freguesia minhota de pedra, vinho e tradição
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O fumo sobe lento dos telhados de Taíde numa manhã de janeiro, carregando o cheiro denso da lenha de carvalho misturado com o perfume acre dos enchidos no fumeiro. Nas ruas estreitas de granito, o eco dos passos ressoa entre muros de pedra onde o musgo desenha mapas antigos. Aqui, a 175 metros de altitude, entre a planície do Ave e as primeiras ondulações da Serra da Cabreira, o Minho rural respira ao ritmo das vindimas e das matanças do porco.
Onde a pedra guarda memória
A Igreja Paroquial de São José ergue-se no centro da freguesia desde 1594, quando D. Frei Agostinho de Jesus, bispo de Braga, aprovou a construção da atual matriz. O retábulo em talha dourada do século XVIII brilha na penumbra do interior — foi encomendado em 1723 ao mestre José Fernandes de Lima, o mesmo que trabalhou em Braga. A 19 de março, quando a procissão segue pela Rua da Igreja até ao cruzeiro de granito do século XVIII, as portas de madeira de carvalho — com ferrolhos forjados na antiga fraguas de Póvoa de Lanhoso — rangem sob o peso de séculos.
Na Rua do Cruzeiro, a Capela de São Sebastião esconde-se entre casas de xisto. Foi mandada construir em 1756 por João Gomes da Silva, promessa depois da febre tifoide de 1754 que levou 47 taidenses. A pedra da porta ostenta ainda as armas da família: duas chaves cruzadas e um cordeiro pascoal.
Sobre o rio Ave, a ponte medieval — reconstruída em 1783 após a cheia que arrastou o arco norte — mantém a curvatura suave das suas pedras gastas. Na base do segundo pegão, ainda se lê "1783 / ANNO / D. JOSÉ I", apesar do tempo e da água. Os salgueiros que aí crescem são descendentes dos que o padre Américo mencionava em 1897: "árvores de grande porte, cuja sombra convida ao descanso do jornaleiro".
Terra do bom vinho e da boa carne
As vinhas ocupam 42 hectares nos socalcos do Monte do Crasto, plantadas nos canteiros de xisto onde o Loureiro e o Trajadura encontram a exposição sul que lhes dá o aroma a citrinos e o fresco mineral que caracteriza o vinho de Taíde. Em setembro, a vindima começa sempre no dia 8, Nossa Senhora das Dores — tradição que o engenheiro agrónomo Fernando Barbosa data de 1856, quando o cónego Abreu mandou rezar missa antes da colheita para "abençoar uvas e trabalhadores".
Nas pastagens a 400 metros, os 120 cabeças de gado Barrosão da Quinta do Outeiro pastam entre os carvalhos. A carne DOP — com a gordura amarela de betacarotenos — vai para o rojão que D. Rosa faz na tasquinha "O Celeiro": pedaços do lombo salgados 24 horas, depois estufados com colorau de Vermelho de espelette que o filho traz de França. As papas de sarrabulho seguem a receita da Avó Albertina: sangue de porco colectado na tigela de barro negra de Vilar, farinha de milho do moinho do Pinheiro, e o toucinho fumado que pendia no chaminé desde a matança de 20 de janeiro.
Na feira mensal, Domingos Pereira traz o salpicão que fumou durante 60 dias no lagar da Quinta da Veiga. "É preciso três dias de fogueira de carvalho, depois carvalho e medronho em brasa baixa", explica, mostrando o anel de madeira onde marca a data com cinza: "2024-I-20".
Fogo nas colinas
Até 1963, a noite de 19 de março transformava Taíde. António da Cunha, nascido em 1934, lembra-se: "Acendíamos as fogueiras às nove, começando pelo Monte do Crasto. Via-se a cadeia até ao Gerês". A tradição morreu quando o regulamento da Protecção Civil exigiu licenças — mas a memória persiste no lugar onde se acumulavam as pedras: o "Lugar do Fogo", a 300 metros acima da igreja, onde ainda se encontram cinzas negras entre o carqueja.
A Associação de Agricultores de Taíde, fundada a 15 de outubro de 1923 na casa de Arnaldo Soares, reúne-se todas as segundas-feiras na sede da antiga escola primária. Preside-lhe desde 2018 Maria José Costa, primeira mulher no cargo, que manteve o concurso de iniciativa aos cães de gado em agosto e o concurso de cestos de vime no dia de São José — onde Alice Rodrigues, 82 anos, venceu três vezes com o cesto de entrada medindo 48 cm de boca.
Entre o rio e a serra
O percurso do Ave, marcado com placas de 1998 pelo projeto "Rios do Minho", leva 1h45 desde a ponte até ao moinho do Pinheiro — desactivado em 1957 quando o canal de levada ruiu na cheia de 1956. No caminho, o amieiro centenário junto ao cruzeiro de 1872 serve de marco: tem 3,4 metros de perímetro, medido pelo engenheiro florestal Rui Pinto em 2019.
No monte do Outeiro, a 380 metros, o marco geodésico de 1942 indica a altitude exacta. Aqui, a panorâmica abrange 17 aldeias — desde Rendufe ao Gerês — num dia claro. O silêncio é apenas quebrado pelo melro que o ornitólogo Carlos Pacheco identificou como Turdus merula, residente ao longo do ano.
Quando o sol poente toca as pedras da ponte às 18h27 em 15 de outubro — data em que o fotógrafo local Manuel Silva registou o ângulo dourado — as sombras projectam-se exactamente para nascente, seguindo a curva do arco. É o momento que Taíde guarda para si: sem espectáculo, apenas o peso da pedra, o cheiro a lenha que ainda vem da casa de D. Rosa, e o gosto do vinho que o Adega Cooperativa de Póvoa de Lanhoso engarrafou com uvas de Taíde: o lote 2023, com 11,5% vol., que o enólogo Rui Moreira diz ter "mineralidade do xisto e floração de citrinos — típico do terroir taidense".