Artigo completo sobre Travassos: terra de passagem entre vales minhotos
Freguesia a 392 metros de altitude onde a Carne Barrosã DOP pasta em socalcos de vinha e granito
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O sino da igreja soa às sete, não às seis como nos sítios grandes. O som bate primeiro no adro de xisto, depois salta para o telhado da cisterna, e só depois vai abaixo pela estrada, abanando as malhas de fiar que ainda estão penduradas nas varandas. Travassos não tem campainha elétrica: tem o badalo que o Sr. Armando puxa com a mesma mão que ontem à noite desfolhou a couve para o caldo.
O nome vem do latim, dizem os livros, mas cá dentro o que se ouve é outra coisa. “Travassos” é o sítio onde se atravessa o regato a pé, onde as vacas das duas margens se reconhecem pelo som do sino. É o ponto onde a estrada de terra muda de concelho – ninguém precisa de placa, o cheiro do eucalipto é diferente do lado de Lanhoso.
Pedra, cal e devoção
A igreja tem duas portas: a da frente, para os dias de festa, e a lateral, que deixa entrar o cheiro do pão quando a missa das dez se arrasta até às onze. O teto de madeira range sempre no mesmo sítio – quem cresceu aqui sabe que é quando o padre diz “oferecimento”. Em São José, o adro enche-se de mesas de plastico emprestadas ao Centro de Dia. As mulheres trazem o avental de casa, os homens bebem o mesmo vinho branco que está na garrafa do lava-loiça desde o Natal. A procissão desce até ao cruzeiro da Carvalheira, depois volta. Ninguém liga o motor do carro: desce-se a pé, sobe-se com fome.
Carne, mel e vinho que arde na garganta
A carne Barrosã não se pede ao talho – pergunta-se na sexta-feira à porta do Celestino se a vaca do Sequeira ainda está no curral. Quando se mata, avisa-se a aldeia toda por WhatsApp. O corte sai às seis da manhã, ainda morno, e leva-se em sacos de plastico que a mulher do celeiro guardou desde a última feira. Grelha-se sobre carvalho seco que cheira a noite de inverno; o sal é o do Minipreço, mas o tempo é o de sempre: vira-se a costela quando o galo do vizinho canta pela segunda vez.
O mel vem em garrafas de leite lavadas, com o rótulo escrito a caneta. Quem compra leva sempre um bolo de milho grátis – é a forma do Sr. Albano agradecer quem não reclama que há cera no fundo. O mel é escuro, sim, mas quem prova pela primeira vez diz sempre a mesma coisa: “sabe a terra queimada”. É a urze e o tojo, mas também é o cheiro das fogueiras de São João que ainda está preso às colmeias.
Entre vinhas e caminhos
As vinhas são tão pequenas que o mapa ignora-as. Cada socalco tem dono, e cada dono sabe onde está a pedra que partiu a enxada no ano passado. Os trilhos não têm setas: têm as pegas das galinhas que foram buscar água à fonte, têm o capim espremido onde a vaca do Manel passou esta manhã. Quando estranho pergunta “para onde vai este caminho?”, a resposta é sempre “vai dar à casa da Dona Aldina”. Só depois se acrescenta: “e depois ao Soajo, se quiser”.
Quotidiano exposto
A mercearia abre às oito e meia, mas a chave está debaixo do capacho porque a D. Odete vai buscar o pão a pé. Dentro, há um caderno onde se anota o que cada um deve – ninguém assina, basta escrever “2 pacotes de massa, Zé da Tenda”. O número de habitantes é o que está na ficha, mas quem cá vive sabe que são mais: contam-se os que morreram no hospital de Braga mas ainda estão nos retratos da sala, contam-se os filhos que emigraram mas mandam remessas para consertar o telhado. O alojamento local é a casa onde a avó morreu; quem lá dorme leva café da máquina da bomba de gasolina, porque a cafeteira da cozinha faz tanto barulho que acorda o cão do rés-do-chão.
Ao entardecer, o sino toca outra vez. Desta vez não é aviso nem chamada: é só o dia que se fecha, como se a aldeia apertasse o botão de um casaco de lã. O fumo sobe direito das chaminés porque o vento aqui conhece cada telha e não se atreve a incomodar.