Artigo completo sobre Vilela: onde o sino marca o tempo e a terra o sabor
A freguesia de Póvoa de Lanhoso onde vivem 596 pessoas entre vinhas, tradição e Carne Barrosã DOP
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O sino da igreja paroquial toca às sete, meio-dia e vinte-e-um, horários fixos desde 1953, quando o pároco António da Silva mandou regular o mecanismo. O som perde-se pelas searas de milho que ainda ocupam 42 % da área agrícola da freguesia, atravessa a EN 205-3 e morre na encosta do Viso, a 312 m. Vilela acorda antes das seis, quando o nevoeiro do Ave ainda agarra as malhas de arame dos postes da EDP e o cheiro a eucalipto queimado sobe das duas fábricas de tabiqueiro que restam. A povoação estende-se por 457 ha desenhados em socalcos medievais: muros de pedra seca com largura média de 0,80 m e altura que vai de 1,20 m a 2,50 m, erguidos entre 1870 e 1930 para conter o solo granítico que, aqui, tem apenas 18 cm de profundidade útil.
Censos 2021: 596 habitantes, 309 fogos, 76 crianças até aos 14 anos, 110 idosos com mais de 75. A densidade — 130 hab/km² — é metade da média do concelho (267 hab/km²), mas 41 % das casas têm moradores apenas nos fins-de-semana: gente que emigrou para Paris em 1974-1982 e voltou para as férias de agosto.
A devoção de março
São José, 19 de março: missa de alvor às 8h00, procissão às 16h00 com o andor de 1892, cedido pela Irmandade de São José de Braga. Desde 1968 que se carrega o Santo pelas ruas Domingos José Alves e Dr. Joaquim Sampaio — a única com calçamento de cubos graníticos feito pelos prisioneiros do Estado Novo em 1951. No adro, a Confraria distribui 400 farturas e 80 litros de vinho quente; as mulheres da Casa do Povo vendem 28 pão-de-ló de 800 g, receita da avó Elvira, nascida em 1912.
À mesa, o território
Carne Barrosã DOP: 12 produtores inscritos na freguesia, gado criado nos campos a mais de 600 m. O matador licenciado abate duas vacas por mês, sexta-feira às 6h00, no matadouro municipal de Póvoa de Lanhoso. O cabrito leiteiro — 150 cabras Serrana — desce de Carvalhinho para o forno a lenha do restaurante O Minho, aberto em 1987, onde se assam 18 cabritos por fim-de-semana de verão.
Vinho Verde: 23 ha de vinha em latada, altitude 168-250 m, castas Loureiro (65 %) e Pedernã (35 %). A cooperativa de Argoncilhe compra a uva a 0,65 €/kg; o vinho engarrafado a 11 % vol. vende-se na adega da Quinta do Outeiro, herdade de 1734, por 3,20 € garrafa. O licor de merda — inventado em 1971 por Zeca do Mini, talhador de Santo Tirso — ainda se serve gelado em digestivo, 2 cl por 1,50 €.
O quotidiano nas encostas
Levada do Viso: canal de 3,2 km construído em 1897 para irrigar 28 ha de regadio; ainda leva 18 l/s nas secas de agosto. O percurso pedestre PR 10 “Vilela – Rio Ave” tem 7,4 km, desnível 180 m, placas colocadas em 2016 pelo Município. Às terças e quintas, o autocarro 102 da Transdev liga às 7h30 e regressa às 18h10; leva 23 minutos até Braga, custa 2,05 € com passe.
Alojamento: duas moradias de granito recuperadas com cofinanciamento PRODER 2014-2020 — Casa do Outeiro (4 dormidas, 80 €/noite) e Quinta da Veiga (6 dormidas, 120 €/noite). Ambas têm certificação de “Turismo no Espaço Rural”, processo 2020-04-PT.
Às 18h45, o sino toca o terço; ouvem-se os cães de guarda das três quintas que ainda mantêm gado. O barulho do Toyota Land Cruiser do Sr. Albano — 82 anos, ex-emigrado em Lyon — desce a Rua do Cemitério, onde o cruzeiro de 1947, mandado fazer por subscription pós-guerra, ainda marca o caminho para a igreja. A luz de Agosto inclina-se a 18° sobre o telhado de duas águas da casa n.º 47, a única que conserva o beiral de madeira torneada do século XIX. Vilela não promete espectáculo: oferece o peso exato de 596 vidas que sabem, ao centímetro, onde termina o seu chão.