Artigo completo sobre Gondoriz: aldeia de granito no coração do Gerês
Freguesia de montanha em Terras de Bouro onde o mel DOP e a pedra contam a vida serrana
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O som dos sinos da igreja chega limpo pelo vale, sem competição urbana que o abafe. Aqui, a 411 metros de altitude, o ar carrega um frescor que vem direto das montanhas do Gerês, trazendo consigo o cheiro a musgo e a terra molhada quando a névoa matinal ainda não levantou — é como abrir a porta do frigorífico, só que em tamanho gigante e sem a luz acesa. Gondoriz respira ao ritmo das estações, com os seus 296 habitantes distribuídos por pouco mais de sete quilómetros quadrados onde o granito aflora entre os campos e o verde domina a paisagem.
A freguesia integra o Parque Nacional da Peneda-Gerês, e essa condição marca-lhe o carácter. Não se trata apenas de uma proximidade geográfica — é uma relação física, diária, com a montanha que se ergue a nascente. As casas de pedra guardam a arquitectura tradicional do Minho, com as varandas de madeira onde ainda se penduram as maçarocas de milho no fim do verão. O xisto e o granito das paredes absorvem o calor do sol durante o dia e devolvem-no lentamente ao entardecer.
Mel que sabe a altitude
Gondoriz produz Mel das Terras Altas do Minho DOP, e não é um pormenor secundário. As colmeias trabalham num território onde a altitude e a vegetação nativa — urze, carqueja, castanheiros — conferem ao mel uma densidade e um perfil aromático específicos. É um mel escuro, denso, que cristaliza rapidamente e guarda o sabor intenso da montanha. Nas casas, ainda se come à antiga: sobre uma fatia de broa de milho, ao pequeno-almoço, quando o frio aperta.
A região dos Vinhos Verdes estende-se até aqui, embora as vinhas sejam discretas, plantadas em socalcos que aproveitam as encostas viradas a sul. O vinho que se produz é para consumo local, servido fresco nas mesas de domingo, acompanhando o cabrito assado no forno a lenha ou os enchidos fumados nas lareiras tradicionais.
Calendário devocional
O calendário de Gondoriz mede-se pelas festas religiosas. Nossa Senhora do Livramento e Santa Eufémia marcam os tempos de celebração local. Em dias de festa, o número de carros estacionados ao longo da estrada nacional duplica — passam a ocupar o comprimento de três campos de futebol, se contarmos desde a entrada da aldeia até ao cruzamento da igreja. As Festas Concelhias em honra de São Brás e a Romaria de São Bento da Porta Aberta — que atrai milhares ao Gerês — inscrevem a freguesia num circuito devocional mais amplo, ligando-a a uma rede de fé que atravessa todo o concelho de Terras de Bouro.
Gondoriz é também ponto de passagem do Caminho do Norte de Santiago. Os peregrinos sobem a calcetada, atravessam a aldeia, pedem água nas fontes e seguem. Deixam pegadas molhadas nos dias de chuva, levantam pó nos dias de agosto, mas raramente param mais do que o necessário para recuperar o fôlego antes de enfrentar a subida seguinte.
A noite cai cedo entre os montes. Quando as luzes das casas se acendem, uma a uma, o silêncio da serra instala-se — é como aquele momento depois de desligar a televisão, só que sem o zumbido eléctrico: denso, físico, interrompido apenas pelo ladrar distante de um cão ou pelo rumor da água que desce invisível entre as fragas.