Artigo completo sobre Vilar da Veiga: Ponte Medieval e Altitude no Gerês
Freguesia a 1132 metros onde nove em cada dez hectares pertencem ao Parque Nacional da Peneda-Gerês
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A água do rio Homem bate nas pedras da ponte com um som que se repete há séculos — grave, constante, sem pressa. É Julho, e o granito dos seis arcos visíveis aquece ao sol da tarde enquanto grupos de peregrinos atravessam em direcção ao Santuário de São Bento da Porta Aberta. A romaria descalça de Pentecostes é a mais antiga do Minho: documentada desde 1640, quando o cabido da vila de Terras de Bouro mandou erguer a ermida de São Bento "na Porta do Gerês", ponto obrigatório de passagem para quem vindo de Braga se preparava para subir a serra. Vilar da Veiga ergue-se a 1132 metros de altitude, onde a planície fértil junto ao rio justifica o nome latino "Villa de Vega" — aldeia da planície — e onde nove em cada dez hectares pertencem ao Parque Nacional da Peneda-Gerês, a maior percentagem de território classificado de qualquer freguesia portuguesa.
O peso do barroco e da pedra
A Igreja Paroquial eleva-se no centro do povoado com os azulejos de 1784 que cobrem o altar-mor e a talha dourada que os velejantes de Vilar da Veiga trouxeram do Brasil. Mais acima, a Capela de Santa Eufémia ocupa o lugar de romaria onde, a 16 de Setembro, os fiéis sobem em procissão carregando andores entre o cheiro a cera e a incenso misturado ao frio húmido que desce da serra. A ponte que liga Vilar da Veiga à Vila do Gerês é conhecida como Ponte dos Sete Arcos — construída entre 1890 e 1893 pelo engenheiro António Rodrigues de Sousa, substituiu a ponte medieval que os documentos da Casa da Moeda de Braga mencionam já em 1527. O "sétimo arco submerso" é, na verdade, um desvio de água que o rio Homem abriu durante a cheia de 1909, deixando um dos arcos isolado na margem.
Borboletas e garranos na maior sala de estar de Portugal
Caminhar até à Cascata do Arado significa atravessar quatro quilómetros de carvalhais e bidoeiros onde mais de 120 espécies de borboletas catalogadas desenham voos erráticos entre a luz filtrada pelas copas. O trilho é acessível a famílias, mas exige atenção aos passos sobre raízes salientes e pedras soltas. Lá em cima, a água despenca em cortina branca sobre o xisto escuro, e o som amplia-se no anfiteatro natural da serra. No Miradouro da Pedra Bela, a albufeira da Caniçada estende-se lá em baixo como um espelho partido entre montanhas — construída entre 1947 e 1955, inundou terras de Vilar da Veiga, Vezeira e Carvalheira, e obrigou à reconstrução da estrada nacional 308 que hoje serve o Gerês. O vento traz o relincho distante dos garranos que pastam livres nos vales — rebanhos semi-selvagens que os habitantes locais identificam pelos nomes das "malhadas": Garrano da Veiga, Garrano da Portela, Garrano da Gralheira.
Trutas, mel e o forno que não engana
O cabrito assado no forno de lenha chega à mesa com a pele estaladiça e a carne que se desfaz ao toque do garfo. No restaurante O Abocanhado — aberto em 1987 numa antiga casa de campo do lugar do Outeiro — o menu de truta do rio Homem apresenta o peixe grelhado com simplicidade que respeita o sabor delicado da carne. O arroz de sarrabulho fumega em tigelas de barro, denso e escuro, enquanto as papas de abóbora surgem como acompanhamento doce que equilibra a acidez do vinho verde da sub-região do Gerês. Na doçaria, o pão-de-ló de Vilar da Veiga — que os pastores levavam nos alforges para a serra — compete com o toucinho-do-céu pela preferência dos visitantes, mas é o Mel das Terras Altas do Minho DOP que rouba protagonismo: produzido nas serras circundantes por abelhas que visitam o giestal e o urzal, apresenta cor âmbar escura e textura densa que cristaliza no Inverno.
Pentecostes, folclore e a praia que não tem mar
No último domingo de Agosto, a Festa em honra de Nossa Senhora do Livramento enche as ruas de bandeiras e o ar de foguetes — trazida de Vilar da Veiga para o centro da vila em 1954, substitui a antiga romaria de Santa Eufémia que se fazia no lugar do Outeiro. A 11 de Julho e no domingo de Pentecostes, milhares de fiéis sobem até ao Santuário de São Bento da Porta Aberta, muitos descalços, cumprindo promessas antigas. Em Fevereiro, as Festas Concelhias de São Brás trazem animação à primeira quinzena do mês mais frio — desde 1987, incluem a "Festa do Fumeiro" onde se provam chouriços de carne de porco alheira de caça. A praia fluvial de Vilar da Veiga oferece águas cristalinas do rio Homem onde se pratica stand-up paddle entre margens de areia fina — aberta em 2011, é a primeira praia fluvial do concelho com bandeira azul.
Ao crepúsculo, quando os últimos peregrinos descem do santuário e o sino da igreja paroquial toca as ave-marias, o eco multiplica-se pelas encostas graníticas e regressa transformado — mais grave, mais longo, como se a própria serra respondesse à chamada.