Artigo completo sobre Cabeçudos regressa ao mapa do Minho em 2023
Freguesia autónoma entre vinhedos verdes, ecopistas e memórias de uma identidade recuperada
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O som das botas dos peregrinos na calçada irregular da EN204 mistura-se com o trinado dos pardais nos muros de granito. Cabeçudos acorda cedo, quando o nevoeiro ainda se agarra aos vinhedos em terraço e o cheiro a lenha das primeiras lareiras se espalha pela aldeia. Aqui, a 50 metros de altitude, entre o rio Este e as colinas suaves do Minho, o dia começa com o mesmo ritmo que há séculos: água corrente nas levadas, portões de ferro a ranger, vozes baixas na praça da igreja.
A freguesia que recuperou o nome
Durante nove anos, entre 2013 e 2022, Cabeçudos desapareceu do mapa administrativo, agregada a Esmeriz numa daquelas reformas que tentaram simplificar o país. Mas em 2023 recuperou a autonomia, e com ela a identidade: os 1808 habitantes voltaram a ter uma freguesia com o nome que sempre usaram. A origem do topónimo permanece envolta em hipóteses — pode vir das figuras gigantes de papel machê, os "Cabeçudos", que desfilam nas festas minhotas, cabeças desproporcionadas oscilando sobre corpos de homens disfarçados. Ninguém sabe ao certo, mas a palavra ficou, teimosa como as videiras que se agarram ao xisto.
Vinhas entre dois caminhos
A freguesia estende-se por apenas 330 hectares, um dos territórios mais pequenos do concelho de Vila Nova de Famalicão, mas cada metro quadrado está ocupado: vinhedos da Região Demarcada dos Vinhos Verdes, pomares de macieiras, hortas familiares delimitadas por sebes de loureiro. O relevo é gentil, quase plano, cortado por pequenos afluentes do rio Este que regam a terra escura. Não há áreas protegidas, mas há uma rede de caminhos rurais que ligam Cabeçudos a Esmeriz e às freguesias vizinhas — trilhos de terra batida onde ainda se vê o sulco deixado pelos carros de bois.
A dois quilómetros passa a ecopista do antigo Ramal de Guimarães, linha férrea desativada convertida em corredor verde que liga o litoral ao interior. Ciclistas e caminhantes atravessam a paisagem agrícola, mas muitos não sabem que estão a cruzar o Caminho Central Português, rota de peregrinação a Santiago que une Ponte de Lima ao Porto, passando por Braga e Famalicão. Nos meses de verão, não é raro ver conchas de vieira cosidas às mochilas, rostos queimados de sol, conversas em alemão ou italiano à sombra do cruzeiro junto à estrada nacional.
Santo Antão e o fogo de janeiro
A Igreja Paroquial de Cabeçudos é um templo moderno, sem pretensões monumentais, mas funciona como centro gravitacional da vida comunitária. É aqui que, a 17 de janeiro, se celebram as Festas Antoninas em honra de Santo Antão, padroeiro dos animais e protetor contra o fogo. A procissão sai ao frio cortante da manhã, seguida de missa cantada, fogueira na praça e o cheiro a chouriça assada que se mistura com o fumo da lenha de carvalho. As mesas enchem-se de caldo verde fumegante, broa de milho ainda quente, vinho verde tinto servido em canecas de barro. Se quiser aparecer, leve um casaco. A igreja fica no alto e o vento de janeiro não perdoa.
Nos arraiais de verão, os Cabeçudos e Gigantones regressam — figuras de papel pintado que dançam ao som das bandas filarmónicas, perseguindo crianças que gritam entre o medo e o riso. É tradição transversal ao Minho, mas aqui ganha espessura própria, como se o nome da freguesia obrigasse à presença dessas cabeças enormes, bocas abertas em sorrisos fixos.
Sabor a granito e colorau
A cozinha de Cabeçudos não inventa: repete gestos antigos com rigor. O cabrito vai ao forno de lenha das casas de lavoura, regado a vinho branco e alho, até a pele estalar. Os rojões à minhota levam colorau e louro, acompanhados de batata cozida e azeitonas. Nas mesas de festa aparecem os "sapos" de Amarante, doces conventuais de massa de amêndoa e ovos que chegam das pastelarias vizinhas. O vinho verde — branco ou tinto, sempre jovem, sempre fresco — é produzido nas quintas familiares, guardado em garrafas sem rótulo, servido sem cerimónia. Pergunte-se antes pelo vinho do ano, que é mesmo assim que se diz por aqui.
A luz da tarde poente dá ao granito dos muros uma cor dourada, quase quente. Nas vinhas, as folhas começam a avermelhar. Um cão ladra ao longe, o sino da igreja marca as seis, e na estrada nacional os peregrinos ajustam as mochilas antes de seguir caminho. Fica o cheiro a terra molhada, a promessa de vindima, o eco dos passos na calçada.