Artigo completo sobre Cavalões: onde o Caminho de Santiago cruza vinhas
Freguesia minhota entre o Ave e os terraços agrícolas, com barroco e tradição vitivinícola
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O sino da igreja bate onze vezes, pausado, enquanto a névoa da manhã se levanta dos campos de milho. A pedra barroca da Igreja Matriz de São Martinho ganha contorno, o granito claro absorvendo o primeiro sol de Junho. Nas traseiras, alguém acende lenha no forno comunitário — o fumo sobe direito, sem vento, e traz consigo o cheiro a pão que António, o padeiro de sempre, tira às 7h30 em ponto. Cavalões acorda devagar, ao ritmo dos ribeiros que descem para o Ave.
A marca dos cavalos
O nome vem de cavallus, cavalo em latim. O padre Fontes, que cá nasceu em 1932, garantia que era pela forma do terreno — "um cavalo deitado, vê-se da estrada de Riba d'Ave". Desde o foral de 1515 que esta freguesia marca o território entre o vale e os terraços agrícolas que sobem em degraus irregulares. O barroco chegou em 1754, quando o abade Jerónimo Ferreira mandou dourar o retábulo principal. Nas capelas rurais — São Sebastião, erguida em 1692; Nossa Senhora da Conceição, onde as mulheres iam em procissão pedir chuva — a devoção popular espalha-se pelo território como pontos de ancoragem espiritual. As quintas antigas — a do Casal, a do Outeiro — ainda têm os brasões desgastados pela chuva, mas o chão da eira onde se debulhava milho ainda se sente sob os pés.
Peregrinos e vindimas
O Caminho Central Português de Santiago atravessa Cavalões mesmo no km 348,3. Nos meses de Verão, os peregrinos param na cafetina da Tia Guida, bebem um café pingado, perguntam se é sempre assim tão quente. Alguns ficam para as Festas Antoninas, que começam no sábado mais próximo de 13 de Junho — o arraial monta-se na praça onde antes era o tanque público, as castanholas rodam até às 3h, e o cheiro de sardinha impregna o casaco. No dia 11 de Novembro, São Martinho traz outra romaria — a bênção dos caldíceis às 10h, o mercado tradicional que ocupa a EN308 até ao meio-dia, o fumo das castanhas assadas a misturar-se com o aroma a vinho novo que o Zé do Mercearia serve às 11h30 em canecas de loiça. A vinha está por todo o lado aqui: nos campos do Casal, onde o António plantou loureiro em 1978; nas parcelas da Azenha, onde a Maria ainda faz o vinho como a mãe lhe ensinou — cachos pequenos, prensagem em lagar de granito, fermentação em tonéis de carvalho que cheiram a borra de vinho antigo.
À mesa minhota
O rojão à moda de Cavalões leva pimentão da terra, o que o diferencia do vizinho — a carne marinada durante duas noites, frita na banha de porco que a Ilda guarda desde o Natal anterior. O arroz de sarrabulho precisa do sangue colhido na matança, temperado com cominho e louro da horta. As papas de sarrabulho comem-se no dia seguinte, mais grossas, com o pão de milho que a vizinha trouxe. O cozido à portuguesa daqui leva toucinho entornado, chouriço de carne, morcela de arroz — tudo o que sobra do porco. Na doçaria, o toucinho-do-céu é da receita do convento de Vilar de Frades, que a Madalena aprendeu com a avó: 20 gemas para cada quilo de açúcar, tudo batido à mão durante meia hora.
Entre o vale e os terraços
A altitude máxima são 106 metros no Monte do Outeiro, mas é suficiente para ver o mar quando a tramontana limpa o ar. Os ribeiros — o de Cavalões, o da Azenha — cortam a paisagem, alimentam o milho que o Joaquim planta sempre na mesma terra do pai. Nos trilhos rurais que ligam capelas e quintas, o silêncio é pontuado pelo canto das aves — melros nos amieiros, pardais nos eucaliptos, a rola-turca que repete a mesma sequência monótona desde que me lembro. A giesta florida em Abril marca o tempo: quando amarelece, é altura de podar a vinha.
O peso dos 1710
A população diminuiu. Dos 2.345 em 1981, ficámos nos 1.710 — mas os números do INE não dizem que o Rui voltou de Lisboa para tratar da vinha do pai, nem que a Ana abriu o café na esquina onde era o talho. Há 229 crianças até aos 14 anos na escola básica onde a Professora Graça dá aulas há 34 anos — ela sabe os nomes de todos, e os nomes dos pais, e dos avós. Em Junho, nas Festas Antoninas, a praça enche com gente que vem de França, da Suíça, do Porto. Em Novembro, no mercado de São Martinho, o Zé ainda vende os mesmos lenços de namorar que a mulher bordava. E no Natal, as lapinhas montam-se nas casas com musgo do Monte, o cantar dos reis percorre as ruas de madrugada — o Manuel, o António e o Zé, com as vozes já roucas mas com os versos na ponta da língua: "Boa noite, senhor dono da casa..."
Quando o último peregrino parte ao amanhecer, a mochila ajustada e o bordão batendo na calçada de 1952, fica o som dos sinos a marcar a hora certa. E o cheiro a lenha que nunca desaparece de todo — porque a Dona Fernanda, com 87 anos, ainda acende o fogão à lenha todos os dias, mesmo no Verão.