Artigo completo sobre Esmeriz: onde o Ave dita o ritmo dos socalcos
Freguesia de Vila Nova de Famalicão com ponte românica, festas antoninas e caldo de fuba fumado
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O sino da Igreja de Santo Estêvão toca três pancadas que se perdem no vale do Ave. Nas margens, os salgueiros inclinam-se sobre a água escura e o cheiro a terra húmida mistura-se com o fumo das chaminés onde os enchidos curam. Esmeriz acorda com as primeiras luzes - já se ouvem as enchadas nos campos de milho e a carrinha do Sr. Arménio que sobe a estrada de granito até à praça. A 102 metros de altitude, o território respira ao compasso da vinha e do rio que moldou estes campos há séculos.
A ponte que atravessa séculos
A ponte românica, reconstruída em 1932 mas fiel ao traçado medieval, é onde os peregrinos ainda molham os pés no Ave a caminho de Santiago. O granito tem sulcos fundos das carroças que passavam para carregar vinho no cais de Calendário. No adro, o cruzeiro setecentista serve de marco - quem vem de longe sabe que por ali se vira à esquerda para Pedraça. A Igreja Matriz, com as suas obras do século XVI, guarda retábulos que a D. Rosa limpa com cuidado antes das missas de domingo. O silêncio é denso, partido pelo ranger das tábuas quando alguém se ajoelha nos bancos de madeira.
O fogo, a água e o pão-bendito
Nas Antoninas, o arraial monta-se na Rua da Igreja - a Brigida põe o altar de Santo António com as suas gerânios e o Zé Mário prepara o assador de sardinhas desde manhã. A concertina do Carlos toca até de madrugada, quando ainda se servem as últimas broas com chouriço. Na noite de São João, as fogueiras acendem-se junto à ponte - as crianças soltam balões de papel e os rapazes saltam as chamas três vezes para "ter sorte no amor". Em maio, a procissão à Capela de São Bento leva horas a subir o caminho de terra - os emigrantes que voltam prometem cumprir esta romaria todos os anos, partilhando o pão-bendito que a Dona Albertina faz desde as cinco da manhã.
À mesa com o Ave
O caldo de fuba é espesso como deve ser - a Maria deixa-o cozer lento com os fumados do casório do vizinho. O rojão leva o vinho branco do Lagar do Pai, alho da horta e louro que seca no sótão. Serve-se em travessas de esmalte, com batatas que estalam na boca e grelos que vieram do campo há uma hora. Nos dias de festa, os bolinhos de São Estêvão saem fumegantes - a receita vem da avó e leva canela de Ceilão como manda o figurino. O vinho verde é servido em taças que o Joaquim fazia no torno - transpiram gotículas quando o dia está quente, a acompanhar o queijo de cabra que a Célia deixa curar no alpendre.
Trilhos entre o rio e a mata
O Trilho dos Moinhos começa atrás da igreja - sobe-se pelo caminho de pedra onde o Zé da Tasca construiu o muro há cinquenta anos. O moinho do Carvalho ainda tem a roda de madeira que range quando o rio vem cheio. Na mata, os carvalhos-alvarinhos são altos - deitados no chão de folhas secas, sente-se o cheiro a terra e ouve-se o rio lá em baixo. Na primavera, os jacintos nascem nos mesmos sítios de sempre - as crianças da aldeia sabem onde os encontrar antes dos fotógrafos de fora chegarem.
Ao fim da tarde, sobe-se ao cruzeiro. A bruma começa a subir dos campos de milho e o sol põe-se atrás da serra da Cabreira. O cheiro a lenha queimada vem das cozinhas - é hora de jantar. Esmeriz não promete monumentos - dá o que tem: o peso da pedra nas paredes, o vinho na taça de barro e o som do rio que nunca pára.