Artigo completo sobre Lagoa: onde cinco moinhos contam o Minho rural
Freguesia mais pequena de Famalicão guarda trilho com cinco azenhas e fogueiras de Santo António
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O cheiro a lenha mistura-se com o aroma adocicado das broas ainda mornas quando o forno comunitário abre, aos sábados de manhã. Na Praça da Igreja, o cruzeiro de 1752 guarda a inscrição «Hic passus est Christus» que o historiador Abílio Miranda decifrou em 1987 — as letras gastas pela chuva do Minho resistem, mas ainda se lêem os versículos que rodeiam o Senhor dos Passos. Ao fundo, o murmúrio constante do Rio Caima atravessa Lagoa como sempre atravessou, movendo agora apenas memórias onde outrora movia pedras de moinho.
Esta é a menor freguesia do concelho de Vila Nova de Famalicão — apenas 187 hectares onde vivem 1268 pessoas — mas concentra a maior densidade de moinhos de água ainda de pé em todo o território: cinco azenhas que o Trilho dos Moinhos liga numa caminhada de cinco quilómetros até Calendário. A do Casal, a do Outeiro, a do Lobo, a do Cimo da Vila e a do Fundo do Lugar — assim as chamam os habitantes, nomes que vêm nos papelinhos de 1923 do cartório de Calendário. Ao amanhecer, quando a névoa ainda cobre o vale e os carvalhos da Mata da Senra pingam orvalho, o percurso revela a engenharia ancestral das levadas, os muros de xisto cobertos de musgo, as rodas de madeira imóveis mas íntegras.
O santo, as fogueiras e os desafios
No dia 13 de junho, Lagoa multiplica-se. As Festas Antoninas acendem treze fogueiras — uma por cada bairro, tradição que remonta ao período medieval — e a procissão serpenteia até à Capela de Santo António, ermida rural onde os fiéis sobem a pé em romaria. À noite, os cânticos ao desafio ecoam entre grupos rivais, verso contra verso, numa arte que Maria da Conceição Abreu, mestra local falecida em 2003, ajudou a preservar através de registos feitos pela Universidade do Minho. Distribuem-se manjericos, sobem balões de ar quente, e nas mesas das casas fumegam as papas de sarrabulho que só neste dia se preparam com toda a cerimónia — a receita vem no caderno de cozinha da Confraria de 1958, com a anotação «para quinze pessoas, seis litros de caldo».
A Igreja Matriz, com naves do século XVI e retábulo barroco de 1723, domina o largo. Subir ao coro alto é ver o teto de madeira pintada que António da Silva Cerqueira, emigrante regressado do Brasil em 1907, ajudou a restaurar com o ouro que trouxe de Santos. O interior mantém a frieza húmida própria das igrejas nortenhas, onde a luz dos vitrais da fábrica do Porto (1898) desenha manchas coloridas no pavimento de pedra.
Sabores de terroir
O Vinho Verde de Lagoa — sub-região de Basto, branco leve e espumante — foi servido na Expo 98 como exemplo de micro-terroir. No antigo lagar comunitário, ainda se pode provar o resultado das vinhas que cobrem as encostas, acompanhado de rojões à minhota com arroz de sarrabulho ou de um caldo verde onde a couve galega se enrola em tiras finas sobre rodelas de chouriço de Vinhais. A aguardente velha, envelhecida em carvalho por mãos artesanais, queima suave na garganta — a destilaria do Sr. Albano funciona desde 1962, com o alambique de cobre que comprou ao abade de Refojos. As broas de milho e de lardas chegam à mesa ainda tépidas, quebrando-se em migalhas douradas, enquanto o doce de abóbora com canela fecha a refeição com a doçura pegajosa que só o outono explica — a receita é da Dona Amélia, que fazia vinte potes por dia na década de 1980.
Caminho e mata
Lagoa é ponto de passagem do Caminho Central Português de Santiago, e as setas amarelas conduzem peregrinos até Rates, doze quilómetros adiante. Mas há quem prefira desviar-se para a Mata da Senra, povoamento autóctone de carvalhos e sobreiros onde a avifauna migratória faz escala na primavera — o Centro de Ornitologia de Esposende regista aqui, desde 1995, mais de 120 espécies. Do Miradouro do Cruzeiro, o vale do Ave estende-se em tons de verde-escuro e ocre, pontuado por telhados de telha que o sol da tarde incendeia.
Quando o sino da igreja bate as seis, o eco desliza pelo vale e perde-se entre os moinhos parados. O Rio Caima continua a correr, indiferente, levando consigo folhas de carvalho e reflexos de granito. Quem caminha pelo trilho ao crepúsculo ouve apenas o próprio passo na terra batida e, ao longe, o ladrar de um cão que anuncia o regresso de alguém a casa.