Artigo completo sobre Lemenhe, Mouquim e Jesufrei: onde os caminhos se cruzam
Três freguesias unidas pelos Caminhos de Santiago e pelos vinhedos do Minho
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O som dos cajados a bater na calçada irregular anuncia-os antes de os vermos. Passam em pequenos grupos, mochilas às costas, olhos fixos no traço amarelo pintado nos muros brancos. O Caminho de Santiago atravessa esta união de freguesias como um fio invisível que cose séculos — o Caminho Central Português e o Caminho do Norte cruzam-se aqui, transformando Lemenhe, Mouquim e Jesufrei num ponto de passagem onde o esforço físico se mistura com a contemplação. Há albergues que recebem os peregrinos, moradias adaptadas onde se descansa antes de continuar para norte, e uma certa energia de trânsito que não perturba, apenas pontua o ritmo agrícola do lugar.
Três nomes, uma só geografia
A fusão administrativa de 2013 juntou três povoações que sempre partilharam a mesma matriz: vinhedos em socalcos suaves, campos que descem até ao vale do Ave, uma altitude média de 191 metros que oferece perspectivas largas sobre os campos de milho e as casas de granito dispersas. Lemenhe traz no nome a memória do latim "lemens" — pensamento, reflexão. Mouquim e Jesufrei guardam ressonâncias medievais, nomes que se fixaram quando esta terra era sobretudo mata e cultivo, antes de se organizar em freguesias. Não há vestígios monumentais que saltem à vista, mas a ocupação romana deixou marcas subtis na disposição dos caminhos — a EN205 segue aproximadamente o traçado da via que ligava Bracara Augusta ao litoral, e a Idade Média modelou a devoção popular que ainda hoje sustenta as festas.
Vinho verde e quotidiano rural
A paisagem desenrola-se em tons de verde — o verde escuro das ramadas, o verde claro das searas na Primavera, o verde profundo dos pequenos bosques de carvalhos que pontuam os campos. Esta é terra de Vinhos Verdes, e embora não haja denominações de origem específicas registadas, a produção agrícola mantém-se viva nas 180 hectares de vinha que ainda hoje se cultivam. As vinhas crescem em latada alta, à moda do Minho, protegendo o solo do sol direto e permitindo que o milho e as batatas prosperem por baixo. Ao fim da tarde, o cheiro a terra molhada mistura-se com o aroma ligeiramente ácido das uvas em maturação. A densidade populacional — 314 habitantes por quilómetro quadrado — diz que esta não é uma terra desabitada, mas os 998 hectares distribuem-se de forma que cada casa respire, com quintais onde se cultivam couves e feijão verde, hortas protegidas por muretas de xisto, galinheiros de madeira pintada de azul.
Devoção e procissão
As Festas Antoninas concentram a energia colectiva da freguesia. Santo António, santo popular e casamenteiro, é celebrado com procissões que saem das igrejas e percorrem as ruas, acompanhadas pela Banda Filarmónica de Louro e pelo cheiro a chouriça assada nas barraquinhas de zinco montadas na Praça da Igreja. Há música tradicional, comes e bebes que prolongam a noite, e uma participação activa das famílias — os 370 jovens dos censos de 2021 correm entre as barracas enquanto os 687 idosos observam sentados nos bancos de pedra da Igreja Matriz de Mouquim, construída em 1896 sobre uma capela medieval. A devoção aqui não é espectáculo, é estrutura — organiza o calendário, reforça laços, dá sentido ao ano agrícola. A procissão de 13 de junho percorre exactamente 2,3 quilómetros, passando pelas três localidades, e termina com o tradicional bolo de São Gonçalo distribuído pelas famílias.
Caminho feito de passos
Para quem caminha rumo a Santiago, esta união de freguesias oferece descanso sem distracção. Não há monumentos que exijam paragem prolongada, mas há a qualidade do silêncio rural, interrompido apenas pelo ladrar distante de um cão ou pelo tractor que lavra um campo ao fundo. Os alojamentos disponíveis — quatro ao todo, entre o Hostel de Lemenhe e as três moradias adaptadas em Mouquim — garantem cama e duche quente, o essencial antes de retomar a marcha. O traçado dos caminhos segue as antigas vias de ligação entre povoações, aproveitando a suavidade do relevo. Não há subidas dramáticas, apenas uma ondulação constante que testa a resistência sem castigar os joelhos — entre Lemenhe e Rates, são 18 quilómetros com uma diferença de altitude máxima de 80 metros.
Ao entardecer, quando os peregrinos já se recolheram e os campos ficam desertos, a luz rasante do Poente acende os troncos das videiras, transformando-os em linhas douradas que recortam a paisagem. Fica o eco dos cajados na calçada, a promessa de que amanhã outros virão, com outras histórias, mas sempre o mesmo gesto antigo de caminhar.