Artigo completo sobre Oliveira celebra Santo António entre vinhas e peregrinos
Freguesia famalicense acolhe dois Caminhos de Santiago e mantém tradição vinícola dos Vinhos Verdes
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O som dos sinos de Santo António desce a encosta abaixo e entra-nos pela janela adentro, enquanto o fumo das sardinhas na brasa sobe pelas ruas de chão irregular. Em junho, Oliveira não dorme: as mulheres penteam as tranças à porta, os homens afinam guitarras de harmonios dentro de estojos de madeira, e as crianças correm descalças atrás das bandeirinhas de papel que tremem no ar quente. São 2418 almas, mas parecem mais quando o arraial enche o largo e as mesas de madeira improvisadas se estendem até junto da cisterna antiga.
Território de passagem e permanência
Dois caminhos de Santiago cruzam-se aqui, mas quem passa nem sempre percebe que entrou em Oliveira. O Central segue pela estrada municipal, entre muros de pedra onde a hera se agarra com unha e dente; o do Norte desce pela Rua do Calvário, onde as casas têm portas mais baixas que as pessoas e as janelas ainda guardam reixas de madeira escura. A paisagem é curta — dois quilómetros quadrados que cabem na palma da mão — mas basta levantar os olhos para ver o Gerês lá longe, azul-ferro nos dias limpos.
Nas vinhas, que ainda ocupam os socalcos a sul do lugar, o verde é mais claro, quase lima. Os parreirais estão agarrados aos pilares de granito que o avô do José — o da taberna — diz ter vindo de trem de Guimarães, num tempo em que havia estação em Pedome. O vinho que se faz aqui não tem nome de marca: leva-se à boca em copos de barro ou em garrafas de plástico reutilizadas, tem aquela efervescência que faz cócegas na língua e deixa a boca à espera de um naco de broa com toucinho.
O peso dos anos
A escola primária fechou há cinco anos. As cadeiras empilham-se na sala onde a professora Amélia dava aulas de português com cheiro a giz e a bolachas Marie. Agora, as crianças vão de autocarro para Famalicão, partem antes das oito e regressam com a mochila suja de areia do recreio do centro escolar. Entretanto, os bancos da praça enchem-se de homens de boné às dez da manhã: falam do tempo, do preço do leite, daquela dor nas costas que não passa. São 662 com mais de 65 anos — quase um terço do lugar — e conhecem-se todos pelos apelidos antigos: o Ferrador, a Rosa-do-Canto, os Meninos de São Lázaro.
Junho em festa
Às vezes chove. Mesmo assim, as pessoas acendem a brasa debaixo do lona plástica esticada entre duas casas. O chouriço é comprado ao Zé da Quinta, que ainda faz matança em janeiro e guarda o fumeiro no sótão, pendurado em canas de bambu. As mulheres levam bacalhau cozido em tachos de alumínio, coberto com um pano de crochet. Os homens abrem garrafas de vinho com a faca de ponta, servindo primeiro aos convidados, depois aos vizinhos, depois a si próprios.
Quando o andor de Santo António sai da igreja, as velas apagam-se ao vento da baixa, mas ninguém as acende de novo: deixa-se arder o que arder. A procissão desce lentamente, passa pela Rua da Igreja, sobe o Calvário onde os morangueiros deixaram cair fruta no chão — o cheiro doce mistura-se com o incenso e com o suor da multidão. No largo, o grupo de concertina toca um vira que ninguém sabe de cor, mas toda a gente dança. São três da manhã quando o último copo é bebido, quando o fogo da sardinha se reduz a brasas e alguém ainda canta baixinho: «Ó São António, traz-me um bom rapaz, mas se não trouxeres, deixa-me ficar como estou.»