Artigo completo sobre Outiz: Onde os Caminhos de Santiago se Cruzam
Freguesia de Vila Nova de Famalicão marcada pela passagem de peregrinos e vinhas da Região Demarcada
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O som das conchas a bater nas mochilas avisa: lá vêm eles. Peregrinos. Passam por Outiz como quem passa pela pastelaria ao fim da rua — é ritmo de quem tem pressa de chegar a lado nenhum. Aqui o Caminho de Santiago divide-se: ou se vai pelo Interior ou se apanha o da Costa. Ambos passam obrigatoriamente por esta aldeia, como quem não quer nada, entre quintas de vinha e muros de xisto que parecem feitos para espreitar o estrangeiro de mochila.
Cruzamento de peregrinos
Mil e setecentos habitantes em trêscentos e tal hectares. Dá para todos, sobra até para os que já cá não vivem. Às dez da manhã só se ouvem os pés dos alemães na calçada e o café do Zé a abrir. Os putos foram todos para Famalicão — escola, trabalho, o costume. Ficaram os velhos na praça a ver passar os caminhantes como quem vê televisão ao vivo. Às vezes até apontam: “Olha, aquele tem as meias às bolinhas.”
Vinhas e vinhos verdes
Aqui é tudo Região Demarcada. Traduzindo: o vinho é verde, mas não é cor — é jeito. As vinhas sobem por tudo quanto é poste de granito. O vinho que se faz é daquele que faz cócegas na língua: ácido, leve, com bolhinhas que se forem bem aproveitadas até ajudam a descer o bacalhau. Nas caves — leia-se, nas garagens com tampa de madeira — ainda se faz mosto como se fazia no tempo do avô. Basta bater à porta da D. Rosa. Ela abre, serve um copo e nem pergunta se quer. É assim.
Junho antonino
A treze de junho a aldeia engorda. São os emigrantes que voltam, os filhos que vêm de Lisboa, os netos que só conhecem a avó pelo WhatsApp. A igreja fica pequena — até o cego do Couto apareve. Há sardinha que nem vê, broa de milho, música pimba a martelar e o padre a segurar o Santo António para não cair da charola. À noite, os rapazes ainda tentam conquistar as raparigas de Vila Nova, mas elas já têm tudo no Tinder. Enfim, tradição é tradição.
Ritmo de caminhada
Não há museus, nem miradouros, nem restaurantes com nomes impossíveis. Há é um banco na praça, uma fonte que ainda funciona (se a torcida não estiver partida) e o café do Zé onde se come um bitoque com ovo a sete euros — inclui bebida. O que Outiz dá é descanso de pernas e conversa de caminho. Quem passa não quer monumentos; quer uma sombra, um copo de água e alguém que lhe diga “vai por aí, já falta pouco para Barcelos”. E pronto. Às vezes é só isto que se precisa.