Artigo completo sobre Riba de Ave: rio, pedra e memória no vale do Ave
Freguesia famalicense onde pontes medievais e caminhos antigos contam séculos de passagem e fé
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A luz da manhã raspa o vale e acende o rio Ave, que corre largo entre álamos e choupos. Do outro lado da margem, o som metálico dos sinos da Igreja Matriz atravessa os campos cultivados, mistura-se com o murmúrio da água e com o ladrar distante de um cão. Riba de Ave acorda devagar, como sempre acordou — ao ritmo do rio que lhe deu nome e ao cheiro a lenha dos fornos que começam a aquecer para cozer a broa de milho.
O topónimo não engana: esta é uma freguesia de margens, de pontes de pedra medieval que testemunham séculos de passagem e comércio. Desde o foral de 1515, outorgado por D. Manuel I, que há registo documental desta povoação, nascida da fertilidade do vale fluvial e da necessidade de controlar a travessia do Ave. Quem caminha pelas ruas antigas ainda encontra os vestígios dessa função estratégica: a Ponte de Riba de Ave, com três arcos de volta perfeita do século XVI, onde o musgo verde-escuro cola-se às juntas da pedra; o Padrão da Parada, erigido em 1842, que assinala o ponto onde as tropas miguelistas montaram acampamento durante a Guerra Civil. A memória aqui não está nos museus — está na paisagem, gravada no granito e nas histórias que ainda se contam ao balcão do Café Central.
O vale, o rio e os caminhos antigos
O Caminho Central Português de Santiago atravessa Riba de Ave paralelo ao rio, seguindo em direção a Barcelos. Os peregrinos que passam por aqui no início do verão cruzam-se com as Festas Antoninas, quando as ruas se enchem de arraiais, procissões e o aroma denso de chouriça assada na brasa. A romaria de Santo António, celebrada a 12 e 13 de junho, mantém rituais antigos: a bênção dos animais no adro da igreja, a distribuição de broa e vinho entre os devotos, o som das concertinas que se prolonga pela noite dentro — especialmente na noite do dia 12, quando o rancho "As Flores" percorre as ruas com os seus acordeões.
A Igreja Matriz de São Miguel, reconstruída em 1727 após o terramoto de 1755, ergue-se no centro da freguesia com torre sineira visível a quilómetros. O retábulo barroco em madeira dourada, atribuído ao escultor bracarense Cipriano da Cruz (1720-1770), brilha à luz das velas durante as novenas de finados. Mais discreta, a Capela de São Sebastião, construída em 1666 durante a Peste Negra, guarda a devoção rural com os seus azulejos do século XVIII representando a vida do santo. A Casa da Menguela — solar setecentista com capela privada dedicada a Santa Bárbara — repousa entre quinteiros tradicionais, testemunho da família Sousa Machado que aqui viveu desde 1734 e cultivava vinha nos 12 hectares que rodeiam a propriedade.
Entre enguias e vinhas verdes
A cozinha de Riba de Ave nasce do rio e da horta. As enguias, pescadas no Ave entre março e outubro pelos pescadores da Associação de Pesca Desportiva local, chegam fritas ou em caldeirada à mesa da Casa de Pasto "O Tosco", aberta em 1982 por Joaquim Pereira e hoje gerida pela filha Lurdes. Os rojões à minhota vêm fumegantes, acompanhados de vinho verde branco da Quinta da Lage, propriedade da família Moura que desde 1950 produz o loureiro e o arinto que servem na tasquinha. O cabrito assado no forno de lenha é reserva de domingo, servido com batatas que absorvem a gordura e o sal — receita da avó Albertina que ninguém conseguiu copiar. Nos dias de festa, surgem os doces conventuais: o pão de ló de Riba de Ave, com a receita original do Convento de Vilarinho das Terras (extinto em 1834), os suspiros que se desfazem na língua, as bolachas de canela que Dona Rosa faz desde 1968 na padaria da rua da Igreja.
O corredor verde do vale
O Trilho do Rio Ave percorre quatro quilómetros entre galerias ripícolas onde os salgueiros se inclinam sobre a água. É um percurso fácil, familiar, pontuado por cinco moinhos de água cujas rodas de madeira apodreceram há décadas mas cujos muros de pedra ainda resistem. O Moinho do Pintor, desativado em 1953, mantém azenha intacta e é ponto de encontro dos pescadores. As aves aquáticas — garças-reais, patos-reais, melros-d'água — movem-se entre as margens, e ao final da tarde a luz doura os campos de milho e as vinhas que sobem as encostas suaves do vale. A elevação média de cento e quarenta metros confere um clima ameno, sem os extremos da montanha nem o calor sufocante do litoral — as temperaturas raramente descem abaixo dos 5°C no inverno ou sobem acima dos 30°C no verão.
Em agosto, quando o verão aperta, a Feira do Livro Usado espalha-se pelas mesas do Parque da Igreja, junto ao rio. Há quem venha correr o Trail do RAHC, prova de 12 km organizada pelo Clube de Hóquei em Patins de Riba de Ave — fundado a 15 de setembro de 1978 por António Lima e um grupo de amigos, foi campeão nacional da 2ª divisão em 1985 —, que serpenteia pelos carris abandonados da linha do Tâmega e caminhos rurais entre o verde denso dos carvalhos.
Ao cair da noite, quando os últimos peregrinos desaparecem na curva da estrada para norte, o rio Ave volta a ser o único som. A água corre indiferente, como correu quando os reis paravam na estalagem real da Parada — registo nos "Livros das Monções" de 1656 —, como correrá quando as pontes medievais forem apenas linhas na paisagem. Aqui, o rio é o relógio.