Artigo completo sobre Ribeirão: cruzamento de caminhos para Santiago no Ave
Freguesia de Vila Nova de Famalicão onde dois percursos jacobeus se encontram entre vinhas e ribeiro
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O primeiro som que se distingue é o da água. Não o rugido de um rio caudaloso, mas um murmúrio constante, quase doméstico — o Ave a deslizar entre meandros, a embater em pedras polidas por séculos de corrente, a alimentar canais de rega que serpenteiam por entre leiras de milho e vinha. Depois vem o cheiro: terra húmida, musgo sobre granito, e qualquer coisa de verde e ácido que paira no ar — o aroma das videiras de Loureiro e Trajadura que trepam em latadas, tão entranhado na paisagem que se confunde com o próprio oxigénio. Ribeirão respira por estas águas e por estas vinhas, e é por elas que se explica.
A freguesia ocupa uma bacia suave do vale do Ave, entre os trinta e os cento e cinquenta metros de altitude, numa extensão de 10,42 km² onde vivem 9 061 habitantes (Censos 2021). O nome vem do latim rivus — riacho, pequeno curso de água — e nenhuma etimologia foi tão literal: ribeiros e regatos cortam o território em todas as direcções, alimentando hortas, pomares de citrinos e bosques de carvalho-alvarinho que resistem nas encostas. Elevada a vila em 1985, Ribeirão nunca perdeu completamente o sotaque rural. A densidade é alta — 870 habitantes/km² — mas basta afastar-se cem metros da EN105 para encontrar espigueiros de madeira alinhados junto a eiras, muros de pedra cobertos de líquenes e o silêncio denso que só existe onde a terra ainda é trabalhada.
A pedra, o cruzeiro e a inscrição do peregrino
A Igreja Matriz de São Tiago ergue-se com a sobriedade do neoclássico tardio: frontão triangular, campanário sineiro lateral, paredes caiadas que reflectem a luz rasante da manhã. No adro, o cruzeiro de 1892 guarda uma inscrição latina que, traduzida, diz: «Aqui o peregrino descansa e reza, porque Santiago é perto.» Não é retórica — Ribeirão é um dos raros pontos em Portugal onde o Caminho Central Português e o Caminho de Norte se cruzam, partilhando 2,8 km de percurso antes de bifurcarem na Lugar do Canto. Os peregrinos carimbam a credencial na Capela de São Sebastião — edificação de 1698 no lugar de Casal, com retábulo barroco do mesmo século — e seguem entre muros de pedra e pontes de arco abatido que já serviam para transportar mercadorias entre Guimarães e Famalicão. A Ponte de Ribeirão, de um único arco, é a mais expressiva: o granito gretado pelo tempo, escurecido pela humidade, mantém-se firme sobre a corrente desde pelo menos 1758, data do primeiro registo cartográfico.
Sardinhas na fogueira, sarrabulho no prato
Em Junho, as Festas Antoninas transformam Ribeirão. A fogueira — 12 metros de altura, construída apenas com pinhas e madeira de sobreiro — arde na noite de 12 para 13, data do Santo António local, como sinal de purificação dos campos antes da colheita. O calor irradia a dezenas de metros, e o ar carrega-se de fumo doce e resina. Nos arraiais, o Rancho Folclórico «Os Caminheiros» anima bailes ao ar livde com concertinas, bombos e rajões, enquanto as sardinhas assadas estouram sobre brasas e o caldo verde escoa para tigelas de barro da Fábrica de Loiça de Barcelos. Os carros alegóricos, enfeitados com flores e produtos agrícolas, desfilam pela Rua Dr. Leonardo Coimbra num cortejo que é simultaneamente oferenda e festa.
Mas a mesa de Ribeirão não se esgota na romaria. O arroz de sarrabulho — porco, sangue temperado com cominhos, hortícolas — é o prato de referência, servido ao lado de rojões à moda do Minho marinados em vinho branco, alho e louro, e de bolinhos de verde, massa de milho frita até ganhar crosta dourada. Em Janeiro, a Festa de São Sebastião traz o almoço colectivo no Largo da Capela: sarrabulho novamente, arroz de cabidela, a bênção dos animais no terreiro. Os enchidos — morcela de arroz, salpicão, chouriça de vinho — ainda se defumam em chaminés tradicionais, e o aroma a lenha de carvalho impregna as vielas estreitas. Nos doces, as fatias de Ribeirão — ovos com massa folhada inventadas na Pastelaria Central nos anos 1960 — disputam espaço com o toucinho-do-céu da Confeitaria Silva e os charutos de amêndoa da Casa Katy, heranças das antigas casas senhoriais cujos brasões de granito ainda se avistam por entre videiras e oliveiras.
O vale, a vinha e os espigueiros que resistem
O trilho do Rio Ave, percurso linear de 5 km, liga a ponte ao miradouro da Pedra Salgada, na pequena serra da Franqueira, a sul. Caminha-se entre carvalhos e vegetação ripícola onde garças e mergulhões nidificam, passando por antigos moinhos de água cujas mós já não giram mas cuja estrutura de pedra se mantém intacta. Nas encostas, a vinha em socalcos alterna com olivais; nos planos, o milho e o feijão crescem lado a lado. A ribeira de Casal, afluente do Ave, cria zonas húmidas temporárias onde se observam libélulas e o discreto sapo-barranqueiro. O corredor do rio é abrangido pela Rede Natura 2000, o que garante alguma protecção a estes habitats.
Ribeirão insere-se na Região Demarcada dos Vinhos Verdes, e o vinho produzido aqui — sobretudo Loureiro, Arinto e Trajadura nas brancas, Vinhão e Borraçal nas tintas — tem história própria: em 1952, a Cooperativa Agrícola de Ribeirão foi das primeiras da região a engarrafar vinho verde em garrafa de vidro, exportando para o Brasil. Hoje, ainda se encontram garrafões de barro à venda na Quinta da Lixa, e a Feira do Vinho Verde, no primeiro fim-de-semana de Agosto, reúne produtores locais com tasquinhas de enchidos e broa de milho. Dos 15 espigueiros de madeira que subsistem no concelho — uma das maiores concentrações em Famalicão —, 7 ficam em Ribeirão: o do Casal foi convertido em miniespaço museológico pela Associação de Municípios do Ave, preservando a memória de uma economia de subsistência que moldou cada pedra e cada socalco.
Dois caminhos, uma encruzilhada
Quem percorre os 2,8 km em que os dois Caminhos de Santiago se sobrepõem fá-lo entre latadas de vinha e muros de granito cobertos de hera, com o som do Ave ao fundo e o cheiro a terra molhada a subir do chão. Depois, a bifurcação: uma seta amarela aponta para norte (Caminho da Costa), outra segue pelo centro (Caminho Central). Antes de escolher, vale a pena parar junto à fonte da Rua do Meio — antiga lavageira pública onde ainda escorre água fresca — e olhar para trás. O campanário de São Tiago recorta-se contra o verde denso do vale, e algures nesse verde arde, em Junho, uma fogueira de pinhas e sobreiro cujo fumo se vê a quilómetros. É esse o cheiro que fica: resina, brasa e terra fértil, tão específico que nenhum outro lugar o replica.