Artigo completo sobre Ruivães: da vila romana ao regresso da autonomia
Pelourinho, Rio Pele e memória de concelho numa freguesia milenar entre Braga e Famalicão
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O pelourinho não está no centro, está ligeiramente descentrado, como quem se afastou para ouvir melhor as conversas. É granito vivo, ainda quente ao fim do dia, com musgo nos sulcos onde as crianças metem palitos para farem de espadas. À volta dele, as casas não "desenham-se" - agarram-se umas às outras, umas com portas azuis desbotadas, outras com brasões apagados onde se lê mal a data de 1923.
O sino de São Martinho não marca a hora com precisão nenhuma. Toca quando o sacristão acorda, às vezes às onze e meia, às vezes ao meio-dia e um quarto. Mas quando toca, as galinhas assustam-se e as mulheres que estão na horta levantam a cabeça para ver se já é hora de ir fazer o jantar.
Quando Ruivães mandava
Os papéis dizem que foi vila até 1853, mas quem aqui vive sabe que isso foi ontem. Ainda há quem diga "vamos à vila" quando desce à Famalicão. O pelourinho tinha corda presa, dizem os mais velhos, para ajustar contas. Agora tem uma tampa de plástico metálica em cima - não é estética, é para os miúdos não se sentarem lá a comer gelados.
A terra é ruiva mesmo, mas não é bonita ruiva. É aquela cor de tijolo molhado que suja os sapatos de quem anda nos caminhos. Quando chove, o Rio Pele leva-a toda para baixo e as hortas perdem-se. Em 2013 juntaram-nos a Novais - foi a mulher do Júlio que foi lá parar buscar um papel e voltou aos prantos. "É como se nos tirassem o nome", disse ela.
Pedra e fé no território
A igreja tem uma porta que range exactamente como a da casa onde cresci. Por dentro, cheira a cera e a roupa guardada. O padre é de Fafe e fala alto, mas quando há missa de defunto abaixa a voz e parece outro.
As festas de São António não são "antoninas" - são as festas de São António, só isso. O arraial monta-se no terreno baldio ao lado da bomba de gasolina, e quem manda agora são os brasileiros. Mas a sopa de cebola continua a ser a mesma, e o cheiro da sardinha queimada agarra-se às camisas durante dias. À noite, quando os bombos param, ouve-se o Matos a ranger os dentes no bar - tem sono leve desde que voltou do Ultramar.
Mesa e vinha
O caldo verde daqui não tem pião. A minha avó dizia que pião era para os ricos, nós comíamos com pão escuro de milho. Os rojões levam sempre uma posta de toucinho - é ela que dá sabor, não o colorau. Quando há casamento, ainda se vai buscar o forno da Dona Lúcia: é um buraco na parede da casa dela, onde o pão fazia-se aos sábados. Agora só serve para o cabrito, que vai lá dentro às sete da manhã e só sai às três da tarde, quando a pele está estaladiça como deve ser.
O vinho é da parcela do Seixas - é branco, mas não é verde. É daqueles que ardem no estômago e fazem chorar o olho. Serve-se em copos de água, e quem pede taça é de imediamente identificado como forasteiro.
Trilhos entre hortas e memória
O caminho do Rio Pele começa atrás da casa do Zé Mário, onde ele tem o depósito da gasóleo. As hortas não são bonitas - têm redes de nylon contra as garças, e estacas de ferro que sobem tortas. Mas têm tomate que sabe a tomate, e pimentos que picam mesmo. Quando se passa pelo moinho do Meio, ainda se vê a marca da roda na parede, e há um cheiro de urina de gato que nunca mais saiu.
O Caminho de Santiago passa lá em cima, na estrada nacional. Os peregrinos não descem - vêem-se lá longe com aquelas mochilas laranjas, mas cá baixo só chegam se se perderem. Quando chegam, perguntam sempre pelo mesmo: água, casa de banho, e se há sítio para comer. A Dona Alda dá-lhes pão com chouriça, mas cobra - não é caridade, é negócio.
Quando o sino toca às sete, as crianças largam a bola e correm para casa. Não é regra escrita - é o que sempre se fez. O pelourinho fica lá, com as iniciais de 1963 riscadas por um casal de namorados que já deve ter netos. A luz vai-se embora por cima das palmeiras - sim, há palmeiras, foram o prenda do emigrante que voltou do Luxemburgo e queria fazer como lá fora. Estão vivas ainda, mas parecem perdidas, como quem foi parar a um sítio onde ninguém lhes explicou as regras.