Vista aerea de Ruivães
DGT - Direcao-Geral do Territorio · CC BY 4.0
Braga · CULTURA

Ruivães: da vila romana ao regresso da autonomia

Pelourinho, Rio Pele e memória de concelho numa freguesia milenar entre Braga e Famalicão

1404 hab.
137.7 m alt.

Festas e romarias em Vila Nova de Famalicão

Junho
Festas Antoninas Dia 13 e durante uma semana festa popular
ARTIGO

Artigo completo sobre Ruivães: da vila romana ao regresso da autonomia

Pelourinho, Rio Pele e memória de concelho numa freguesia milenar entre Braga e Famalicão

Ocultar artigo Ler artigo completo

O pelourinho não está no centro, está ligeiramente descentrado, como quem se afastou para ouvir melhor as conversas. É granito vivo, ainda quente ao fim do dia, com musgo nos sulcos onde as crianças metem palitos para farem de espadas. À volta dele, as casas não "desenham-se" - agarram-se umas às outras, umas com portas azuis desbotadas, outras com brasões apagados onde se lê mal a data de 1923.

O sino de São Martinho não marca a hora com precisão nenhuma. Toca quando o sacristão acorda, às vezes às onze e meia, às vezes ao meio-dia e um quarto. Mas quando toca, as galinhas assustam-se e as mulheres que estão na horta levantam a cabeça para ver se já é hora de ir fazer o jantar.

Quando Ruivães mandava

Os papéis dizem que foi vila até 1853, mas quem aqui vive sabe que isso foi ontem. Ainda há quem diga "vamos à vila" quando desce à Famalicão. O pelourinho tinha corda presa, dizem os mais velhos, para ajustar contas. Agora tem uma tampa de plástico metálica em cima - não é estética, é para os miúdos não se sentarem lá a comer gelados.

A terra é ruiva mesmo, mas não é bonita ruiva. É aquela cor de tijolo molhado que suja os sapatos de quem anda nos caminhos. Quando chove, o Rio Pele leva-a toda para baixo e as hortas perdem-se. Em 2013 juntaram-nos a Novais - foi a mulher do Júlio que foi lá parar buscar um papel e voltou aos prantos. "É como se nos tirassem o nome", disse ela.

Pedra e fé no território

A igreja tem uma porta que range exactamente como a da casa onde cresci. Por dentro, cheira a cera e a roupa guardada. O padre é de Fafe e fala alto, mas quando há missa de defunto abaixa a voz e parece outro.

As festas de São António não são "antoninas" - são as festas de São António, só isso. O arraial monta-se no terreno baldio ao lado da bomba de gasolina, e quem manda agora são os brasileiros. Mas a sopa de cebola continua a ser a mesma, e o cheiro da sardinha queimada agarra-se às camisas durante dias. À noite, quando os bombos param, ouve-se o Matos a ranger os dentes no bar - tem sono leve desde que voltou do Ultramar.

Mesa e vinha

O caldo verde daqui não tem pião. A minha avó dizia que pião era para os ricos, nós comíamos com pão escuro de milho. Os rojões levam sempre uma posta de toucinho - é ela que dá sabor, não o colorau. Quando há casamento, ainda se vai buscar o forno da Dona Lúcia: é um buraco na parede da casa dela, onde o pão fazia-se aos sábados. Agora só serve para o cabrito, que vai lá dentro às sete da manhã e só sai às três da tarde, quando a pele está estaladiça como deve ser.

O vinho é da parcela do Seixas - é branco, mas não é verde. É daqueles que ardem no estômago e fazem chorar o olho. Serve-se em copos de água, e quem pede taça é de imediamente identificado como forasteiro.

Trilhos entre hortas e memória

O caminho do Rio Pele começa atrás da casa do Zé Mário, onde ele tem o depósito da gasóleo. As hortas não são bonitas - têm redes de nylon contra as garças, e estacas de ferro que sobem tortas. Mas têm tomate que sabe a tomate, e pimentos que picam mesmo. Quando se passa pelo moinho do Meio, ainda se vê a marca da roda na parede, e há um cheiro de urina de gato que nunca mais saiu.

O Caminho de Santiago passa lá em cima, na estrada nacional. Os peregrinos não descem - vêem-se lá longe com aquelas mochilas laranjas, mas cá baixo só chegam se se perderem. Quando chegam, perguntam sempre pelo mesmo: água, casa de banho, e se há sítio para comer. A Dona Alda dá-lhes pão com chouriça, mas cobra - não é caridade, é negócio.

Quando o sino toca às sete, as crianças largam a bola e correm para casa. Não é regra escrita - é o que sempre se fez. O pelourinho fica lá, com as iniciais de 1963 riscadas por um casal de namorados que já deve ter netos. A luz vai-se embora por cima das palmeiras - sim, há palmeiras, foram o prenda do emigrante que voltou do Luxemburgo e queria fazer como lá fora. Estão vivas ainda, mas parecem perdidas, como quem foi parar a um sítio onde ninguém lhes explicou as regras.

Dados de interesse

Distrito
Braga
DICOFRE
031269
Arquetipo
CULTURA
Tier
standard

Habitabilidade e Serviços

Dados-chave para viver ou teletrabalhar

2023
ConectividadeFibra + 5G
TransporteEstação de comboio
SaúdeHospital no concelho
EducaçãoEscola básica
Habitação~1264 €/m² compra · 5.08 €/m² renda
Clima15.3°C média anual · 1697 mm/ano

Fontes: INE, ANACOM, SNS, DGEEC, IPMA

ADN da Aldeia

45
Romance
35
Familia
25
Fotogenia
35
Gastronomia
35
Natureza
20
Historia

Descubra mais freguesias

Explore todas as freguesias de Vila Nova de Famalicão, no distrito de Braga.

Ver Vila Nova de Famalicão

Perguntas frequentes sobre Ruivães

Onde fica Ruivães?

Ruivães é uma freguesia do concelho de Vila Nova de Famalicão, distrito de Braga, Portugal. Coordenadas: 41.4007°N, -8.4439°W.

Quantos habitantes tem Ruivães?

Ruivães tem 1404 habitantes, segundo os dados dos Censos.

Qual é a altitude de Ruivães?

Ruivães situa-se a uma altitude média de 137.7 metros acima do nível do mar, no distrito de Braga.

17 km de Braga

Descubra mais freguesias perto de Braga

Escapadas de fim de semana, natureza e patrimonio a menos de 45 km.

Ver todas
Ver concelho Ler artigo