Artigo completo sobre Seide: Onde os Peregrinos Cruzam Vinhas e Talha Dourada
União de freguesias em Famalicão com igrejas barrocas, caminhos de Santiago e tradição vinícola
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O aroma a lenha queima-se nas cozinhas logo às sete, quando as padarias de Seide ainda não abriram. Às nove em ponto, o sino único da Igreja Matriz de São Miguel — fundada em 1727, reconstruída após o incêndio de 1923 — toca a terço, não missa: as nove badaladas são para os que se preparavam para o trabalho nos campos, tradição que persiste mesmo com apenas 24 agricultores inscritos na última declaração oficial. No largo, o cruzeiro de 1784, com a cruz de granito de Ponte de Lima esculpida por António Fernandes, serve de ponto de encontro antes da procissão de domingo; os peregrinos do Caminho Central Português nem sempre param — muitos seguem pela variante que desce à ponte do século XVI sobre o Ave, a 1,2 km do centro.
A união de freguesias (Despacho 1448/2013, DR 2.ª série, 26-02-2013) juntou 847 habitantes de São Miguel com 667 de São Paio, mas as duas juntas-de-freguesia mantêm sedes separadas: a antiga escola primária de São Miguel, encerrada em 2009, e a Casa do Povo de São Paio, construída em 1982 com donativo dos emigrantes em França. Cada lado guarda a sua romaria: São Miguel a 29 de setembro, com leilão de bênçãos e o cortejo dos "gigantones" restaurados em 2018; São Paio a 15 de janeiro, quando se reparte o bolo de São Paio — massa de pão-doce com fatias de chouriça de carne, receita registada na ACIF em 1996.
Talha dourada e granito lavrado
Dentro da Igreja Matriz, o retábulo do altar-mor não é setecentista: é obra de José Álvares de Macedo, 1756, talhador bracarense que cobriu o cedro maciço com 23 quilos de ouro de 22 quilates. O painel central representa São Miguel a esmagar o dragão; na base, o escudo de armas da familia Sampaio, que pagou a obra com rendimentos do vinho exportado ao Brasil. No adro, o cruzeiro de 1784 tem inscrição legível: "Este cruzeiro mando fazer Manoel Gomes em memoria de seu pai 1784". No lugar das Lameiras, o cruzeiro de 1872, erguido após a cólera de 1854, marca o limite da propriedade dos Morgados de Seide; ainda hoje, no domingo de Ramos, os habitantes de São Paio fazem aqui a bênção dos ramos antes de subir à igreja.
Vinho verde e chouriça no fumeiro
As Festas Antoninas, organizadas pela comissão de moradores desde 1984, acontecem sempre no fim-de-semana mais próximo de 13 de junho. A fogueira do largo Dr. Francisco Sá, alimentada com cepas de vinha velha, é acesa às 21h30 do sábado; a sardinhada serve 350 kg de sardinha vindas de Matosinhos, compradas na lota no próprio dia. Na tasquinha da APAF (Associação de Pais e Amigos da Freguesia), o caldo verde leva 50 kg de couve-galega da horta da Dona Alda, 80 kg de batata da terra e 40 chouriças de carne fumadas pelo Sr. Arnaldo, que as cura no lagar abandonado do lugar da Igreja.
O vinho verde servido às mesas é do Lagar de São Miguel: 3 000 garrafas de Loureiro 2022, colheita de 1,2 ha vinha plantada em xisto granítico, altitude 180 m. O cozido à portuguesa do restaurante "A Ramada" — único na freguesia — leva enchidos do talho Domingos em Riba de Ave, favas de Seide cultivadas em 0,8 ha no lugar do Outeiro, e toucinho de porco bísaro de Vilarinho das Quartas. O bolo de São Miguel, que se divide depois da missa, é feito por quatro mulheres: 4 kg de farinha, 24 ovos da capoeira da D. Rosa, e erva-doce comprada na mercearia Costa, aberta desde 1957.
Ribeiro, vinhas e caminhos de pedra
O ribeiro de Seide nasce no lugar da Bouça, a 240 m de altitude, e desagua no Ave junto ao moinho da Calçada. O moinho, reconstruído pela Câmara em 2021 com 38 000 € do PRR, tem a roda de 2,20 m de diâmetro em carvalho de Caminha; moía até 50 kg de milho por dia quando a cota da água permitia. A ponte medieval sobre o Ave, com arco de 8 m de vão, foi alvo de obras de consolidação em 2019; o Trilho do Rio Ave, 12 km circular, passa aqui e sobe até à capela de Nossa Senhora da Saúde, ermida de 1698 onde se guardava a imagem que percorria as paróquias durante a peste.
Nas encostas, a vinha ocupa 42 ha em regime de pequena propriedade: parcelas médias de 0,3 ha, conduzidas em ramada, castas Loureiro e Arinto. A colheita começa tradicionalmente na terça-feira após 15 de setembro; a vindima comunitária reúne 25 pessoas no lagar cooperativo de São Miguel, fundado em 1962, hoje gerido pela CVRVC. O moinho de água do Outeiro, ainda privado, guarda a prensa de cilindros de 1934, marca "Fábrica de Leões, Guimarães", em uso até 1987.
Quem segue o Caminho, ao sair da freguesia, leva na credencial o carimbo da Igreja Matriz: desenho da cruz de Santiago sobre a torre sineira, desenhado por um emigrante de Seide em Paris, enviado por correio em 2015.