Artigo completo sobre Vermoim: arquitectura premiada entre vinhas verdes
Capela tradicional e edifício contemporâneo dialogam numa freguesia de peregrinos e vinhedos
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O betão da Junta agarra um quente de fim-de-tarde, aquele sol que só pinta paredes depois das seis. Entre vinhas ainda em pé — algumas agarradas a terrenos que já pensavam em loteamento — o edifício do Rui Mendes Ribeiro até parece um convidado bem-parecido: veste-se de ArchDaily para o jantar, mas calça umas serranas desgastadas. A 139 metros de altitude, Vermoim tem 2947 almas e uma densidade que não sufoca: dá para respirar, mas também para cumprimentar o vizinho sem ir buscar o telemóvel.
A capela, a junta e o miolo do pão
A Capela de São Sebastião é miudinha, caiada de branco e com uma porta baixa que lembra as casas de banho das tascas antigas. Lá dentro, o silêncio pesa como capa de chuva molhada — aquele sossego que só existe onde se rezou durante séculos sem microfone. A três passos, a Junta de 2019 mostra-lhe os dentes de vidro e betão. Não se zangam: a capela continua a marcar o tempo ao sino, a Junta trata da internet. Servem o mesmo café, só trocam a chávena.
Peregrinos, caminhantes e cães que ladram em castelhano
O Central e o Norte da Santiago cortam a freguesia como quem atravessa a cozinha de vizinho aberta. Os peregrinos param na fonte, enchem garrafas e perguntam se há pastel de nata. Há — mas é caseiro, vem em saqueta de plástico e custa oitenta cêntimos. À noite, na caminhada organizada pela Câmara, os trilhos parecem outros: o mesmo cão que de dia só ladra, agora parece falar galego. São oito quilómetros até Famalicão, mas aqui o GPS perde-se entre muros de pedra e nomes de ruas que ninguém usa.
Festas de Santo António: o arraial que não precisa de Instagram
Em junho, as luzes de Santo António estendem-se como cueca no estendal. A banda filarmónica toca o mesmo medley desde 1987, o cheiro de sardinha agarra-se às camisas e há sempre um avô que dança com a neta ao som de “Onda Onda”. São 593 pessoas com mais de 65 anos — muitas delas já carregaram a imagem do santo quando a procissão ainda ia a burro. Ninguém paga bilhete, ninguém filma para stories. A única selfie é o pai a levantar o filho para ver os foguinhos.
Vermes, vinhas e o verde que não é de esmeralda
Dizem que Vermoim vem de vermis — verme. Pode ser do solo, pode ser da cabeça de quem inventou o nome. O que importa é que as vinhas continuam lá em baixo, podadas rentes como crew-cut de militar. No verão, a uva ganha acidez de gajo que leva comida de molho na cantina: é assim que nasce o vinho verde, aquele que não leva gasosa e ainda assim desce redondo. Quem quer ver montras vai a Famalicão; quem quer ver parra, fica.
Oito quilómetros e um café com dois paus de canela
Dos seis alojamentos da freguesia, nenhum tem spa nem concierge. Tem colcha de linho, janela para a eira e um gato que entra e sai como sócio. A distância até Famalicão é a mesma que se faz para ir ao Intermarché — dá para ir e voltar antes de o café arrefecer. À saída, o sino da capela bate uma vez, só para lembrar que o dia acabou. As vinhas escurecem, a Junta apaga a luz e sobra o cheiro a terra mole que só se sente depois de agosto.