Artigo completo sobre Vilarinho das Cambas: vinhas, pedra e tradição
Conheça Vilarinho das Cambas em Vila Nova de Famalicão, Braga: vinhas em socalco, vinho verde de cambas e tradições que resistem ao tempo no vale do Ave.
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O som chega antes da imagem: água a bater na pedra, igual ao barulho que a torneira da cozinha faz quando se esquece de a apertar bem. Só depois de pisar a ponte de granito — a mesma onde o meu pai me ensinou a atirar pedras ao Rio Ouro — é que o resto aparece: as vinhas em socalcos como escadas de gigante, os espigueiros de madeira escura que cheiram a terra e a uva esmagada, os muros onde o musgo cresce mais depressa que a barba de um homem de luto. Vilarinho das Cambas está a 118 metros de altitude, numa encruzilhada entre o vale do Ave e aquelas colinas que são só o aquecimento antes da Falperra.
Cabanas de pedra e vinhas em socalco
As "cambas" eram as casinhas que os nossos avós construíam com as pedras que a terra cuspia. Serviam para guardar enxadas e abrigar o lanche — pão com toucinho e um golo de vinho tinto que sabia a ferrugem. "Vilarinho" é mesmo isso: um lugar pequeno que só se tornou freguesia em 1934, quando se cansaram de ir à missa a Famalicão a pé. A Igreja Matriz de S. João Baptista tem aquela nave única que faz parecer que o padre está a pregar só para nós. A talha dourada é bonita, mas o que me marca são os azulejos: um azul que me lembra a camisa que o meu avô usava nas domingueiras.
Ainda se faz o "tira-de-noite" — uma maluqueira de podar a vinha à luz de archotes na noite de São Martinho. Dizem que é para as videiras "sentirem" a lua, mas eu acho que é desculpa para beber um copo a mais. O vinho verde de cambas é aquele tinto que faz espuma quando se abre a garrafa e que acompanha o queijo de cabra que a D. Lourdes vende à porta de casa. Na Quinta do Outeiro, o senhor que faz as provas conta sempre a mesma história do brasão de armas, mas perdoa-se porque o vinho da pipa vale a pena.
Caldo dos Santos e papas de sarrabulho
Entre 13 e 20 de Janeiro, o largo da igreja enche-se de gente que já se conhece desde que se sabe que o bacalhau se come com tudo. Há missa cantada com o harmónio que o Toninho toca como se estivesse num café de Paris, ranchos folclóricos com saias que rodopiam como guardanapos ao vento, e o "Caldo dos Santos" — caldo verde com chouriço que o meu tio diz ser "a única coisa que aquece mais que uma discussão de política". A cozinha é a do Minho: cabrito que desmancha na boca, rojões que fazem chorar os olhos mais que um funeral, papas de sarrabulho que parecem uma poesia estranha mas que sabem a infância. Os "sapos de Vilarinho" são doce de ovos que a minha avó fazia quando eu ajudava a bater as claras — e que eu comia antes de chegar à mesa.
Moinhos de água e peregrinos a Santiago
O Trilho dos Moinhos são oito quilómetros que se fazem em duas horas se não se parar a conversar com o pastor do Sr. Domingos. Os moinhos estão lá, com as mós de granito que parecem dentes de serra gigantes. O Caminho de Santiago passa por cá — os peregrinos chegam com as botas mais rotas que a minha carteira e partilham a mesa do pequeno-almoço como se fossem primos que não víamos há anos. A Casa do Peregrino tem um gato laranja que dorme no albergue e que já tem mais fotografias que o Cristiano Ronaldo.
Na margem do rio, onde as mesas de pedra estão sempre ocupadas por famílias que trazem o arroz de tamboril num tupperware, o silêncio só é interrompido pelo chilrear dos pássaros e pelo roncar do meu estômago quando cheira a carne na grelha. O sol poente põe o granito cor de mel e o Rio Ouro fica com aquela luz que me faz lembrar o olhar da minha mãe quando me via chegar a casa tarde. Fica o sabor do vinho verde — aquele que sabemos que é bom porque nos faz falar mais alto e abraçar os amigos como se fossem irmãos.