Artigo completo sobre Cabanelas: vitela na brasa e linho cantado no vale do Ave
Cabanelas, Vila Verde, Braga: tradição da vitela assada, cantigas de linho e romarias centenárias numa freguesia junto ao rio Ave com igreja barroca do séc
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O cheiro a vitela na brasa chega antes de se avistar o fumo. Lenha de carvalho crepita sob a grelha, e o vento traz o aroma de alho, louro e pimentão doce que marinaram a carne durante a noite. É sábado de manhã em Cabanelas, e nas traseiras das casas de granito já se prepara o almoço que só estará pronto ao meio da tarde. O rio que dá nome à freguesia murmura entre amieiros e salgueiros, invisível mas constante, como uma conversa antiga que nunca acaba.
Cabanas de pedra e santos de talha
O topónimo vem do latim cabana — as primeiras habitações que aqui se ergueram eram pouco mais do que abrigos de pastores e lavradores que aproveitavam os terraços férteis do vale do Ave. Quando a freguesia se formou no século XVI, já havia cruzeiros de pedra a marcar cruzamentos e devotos a prometer romarias. A igreja matriz, construída no século XVIII e dedicada a Santo António, guarda um retábulo barroco em talha dourada que brilha à luz das velas. Nos painéis de azulejo setecentista, cenas bíblicas alternam com flores estilizadas, azuis sobre branco. A poucos quilómetros, a capela de Nossa Senhora do Bom Despacho ergue-se pequena e caiada, fruto de um voto feito durante a cólera de 1854: os habitantes prometeram romaria anual se fossem poupados. Cumprem até hoje, no primeiro domingo de maio, caminhando desde a matriz com cânticos e distribuindo bolo doce no adro.
Onde o linho ainda se canta
Em agosto, há quem se reúna para bater e fiar o linho ao som de cantigas que contam o ciclo da planta — do semeio à colheita, da maceração à roca. É o «Fio do Linho», tradição que sobrevive nas mãos de meia dúzia de vizinhos que aprenderam com os avós. Maria da Conceição Cerqueira, mestra de canto tradicional, guardou durante oitenta anos o repertório das cantigas de Santo António, ensinando-as ao Rancho Folclórico do Minho antes de morrer em 2003. A sua voz está gravada em cassetes que ainda se ouvem nas festas de junho, quando a freguesia se enche de fogueiras, sardinhada e bailarico. Junto ao rio, o «carvalho dos namorados» — tronco com mais de trezentos anos — foi testemunha de pedidos de casamento selados com lenços bordados deixados entre as raízes.
Papas, enchidos e vinho verde
A mesa de Cabanelas é a de quem vive da terra e não desperdiça nada. As papas de milho — pirão denso e amarelo — acompanham feijoada de favas ou bacalhau cozido. Os enchidos são de porco preto: morcela de arroz, salpicão de toucinho, chouriça curada no fumeiro. A doçaria inclui bolinhos de São Gonçalo com canela e noz, tortas de amêndoa e o pão de ló de Cabanelas, fofo e húmido, que se parte à mão. Nas adegas familiares produz-se vinho verde de loureiro e arinto, e ao fim da refeição serve-se aguardente velha de bagaceira ou licor de mel das Terras Altas do Minho DOP. A batata de Trás-os-Montes IGP e a carne Cachena da Peneda DOP chegam aos mercados semanais de Vila Verde, onde os produtores vendem também maçã Golden colhida na véspera.
O trilho dos moinhos
O Caminho do Rio parte da igreja e desce até ao leito do Cabanelas, onde três moinhos de pedra ainda conservam rodízios e caleiras. A água corre sobre granito polido, entre fetos e musgos que crescem à sombra dos freixos. O trilho é circular, três quilómetros que terminam na Alameda, onde bancos de granito enfrentam o vale e as crianças brincam no parque infantil. Nos topos mais secos, bosques de carvalho-alvarinho e sobreiro abrigam melros-d'água e garças-reais que descem às lagoas temporárias. A Ecopista do Ave, a cinco quilómetros, permite cicloturismo até à foz, e há quem desça o rio de caiaque nos troços navegáveis entre Cabanelas e Ribeira.
O sino da igreja toca ao meio-dia. O eco atravessa o vale, bate nas encostas e regressa transformado, mais grave, como se a pedra lhe acrescentasse peso. Nas traseiras das casas, a vitela já saiu da grelha.