Artigo completo sobre Coucieiro: onde o couro deu nome aos vales do Minho
Festa de Santo António, Carne Cachena DOP e vinhedos a 101 metros de altitude em Vila Verde
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O aroma da carne a assar mistura-se com o fumo lento das lareiras. Em Coucieiro, a 101 metros de altitude sobre os vales do Minho, o cheiro da lenha acompanha os dias de Junho, quando as ruas se enchem para a Festa de Santo António e o ar carrega o perfume quente dos assados. Aqui, onde vivem 526 pessoas distribuídas por 4,2 km², a vida organiza-se entre o trabalho da terra e o calendário das romarias.
A memória inscrita no nome
O topónimo Coucieiro vem do latim cucurio — casa de couro. Documentos do Arquivo Nacional da Torre, datados de 1541, mencionam já a "freguesia de Coucieiro" com 40 fogos. A paisagem conserva essa memória: no Largo do Cruzeiro, a cruz de granito do século XVII marca o antigo caminho que levava os curtumes de Braga até às pastagens da Serra da Peneda. No lugar de Paredes, ainda hoje se identificam os tanques onde se curtia o couro, agora convertidos em tanques de irrigação.
Entre santos e romarias
O calendário religioso estrutura o ritmo colectivo. A 13 de Junho, a Festa de Santo António transforma Coucieiro no centro concelhio: a procissão sai da igreja matriz às 17h00, percorre as ruas Engenheiro Adelino Amaro da Costa e Dr. José Faria de Vasconcelos, e regressa para a missa campal. Mas é a romaria de Nossa Senhora do Bom Despacho, no segundo domingo de Setembro, que traz gente de Arcos de Valdevez e Ponte da Barca. Desde 1953 que a banda filarmónica local toca o "Hino da Romaria", composto pelo couceirense Joaquim da Silva.
Sabores que carregam denominação
Na mercearia da D. Lurdes, a Carne Cachena da Peneda DOP chega todas as sextas-feiras vinda da cooperativa de Castro Laboreiro. A 12 euros o quilo, vende-se inteira para o assado dominical ou em cubos para o caldo. O vinho branco da Quinta da Raza — plantado a 250 metros de altitude em solos de xisto-granito — tem 11% de álcool e a acidez que corta a gordura da carne. Para sobremesa, o pão-de-ló de Coucieiro: a receita da família Gomes, registada na Câmara de Comércio em 1923, leva 12 ovos por quilo de açúcar e vai ao forno de lenha durante 45 minutos.
Há quatro casas de alojamento rural, todas moradias: Casa do Forno (capacidade 6 pessoas), Quinta do Cruzeiro (8), Casa da Eira (4) e Casa do Rio (5). A 50 euros a noite em Junho, incluem lenha para a lareira e ovos das galinhas do quintal.
A textura do quotidiano
Com 62 jovens até 14 anos e 125 idosos com mais de 65, Coucieiro perdeu 32% da população desde 2001. Mas na Escola Básica do 1.º ciclo — onde em 2023/24 frequentam 18 alunos — ainda se ensina o dialeto minhoto. O combinado agrícola funciona às terças e sextas, vendendo batata de S. Pedro do Sul a 0,80 euros o quilo e cebola de Barcelos a 1,20. Às 12h00, o sino da igreja toca o "angelus" — sinal de que o almoço está na mesa. E quando o tractor da Cooperativa Agrícola passa às 18h00 pela EN 308, é hora de recolher as vacas da pastagem.