Artigo completo sobre Dossãos: Vinhas, Granito e Tradição no Vale do Ave
Freguesia vinhateira em Vila Verde onde os socalcos marcam a paisagem e Santo António rege o calendá
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O som do sino de Santo António — são oito pancadas, nunca nove — desce a encosta como quem avisa que são onze horas. Em Dossãos não há relógio que valha mais que este: o bronze queimado toca e as mulheres param de regar as alfaces, os homens largam a enxada. A aldeia fica a 235 metros, mas sobe-se tanto para lá chegar que o ar já perdeu o peso do vale do Ave. O granito das casas, tão negro ao amanhecer, ferve ao fim da tarde; se lhe pusermos a mão sentimos a dor lenta do sol acumulado.
Três quilómetros quadrados, 424 almas. Dizem os números. Dizem mal. Porque na prática são dois cafés (um aberto, um fechado), uma mercearia que vende leite em pacote e o restante em pó, e quatro ruas que soam a bota de borracha no chão molhado. Dos 120 idosos, 33 vivem sozinhos: deixam o jarro de água na mesa de cabeceira e o comando da televisão ao alcance da mão direita. As 54 crianças aprendem logo que o autocarro escolar às 7h10 não espera — se perderem, a mãe telefona à Dona Alda, a única que tem carro e disposição para fazer a viagem a Éntula.
Junho
Quando chega o fim-de-semana de Santo António, o arraial monta-se no terreno onde o Sr. Aníbal costuma secar o milho. Asseguram-se primeiro as mesas de madeira — são do Celeiró; as cadeiras plásticas — são da Junta; e o palco, que é apenas duas tábuas sobre barris, mas serve. As sardinhas vêm de Viana, já limpas; o pão é do dia, ainda quente, e o vinho verde traz-se em garrafões de cinco litros que o tio Fernando enchi na adega cooperativa de Pico. Às dez da noite o fogo de artifício soa como estalo seco: o cão da Dona Lurdes ladra, depois esconde-se debaixo da mesa. Os emigrados que vieram da França reconhecem-se pela roupa demasiado nova; cumprimentam-se com três beijinhos, mas o terceiro já não se dá — ficam com a mão no ombro, tímidos.
À Mesa
Às segundas-feiras o talho recebe meia vaca cachena: a carne é escura, quase roxa, e cheira a noite de outono. Deixa-se estufar com louro e com um fio de vinho branco que a Dona Odete guardou da última vindima. A batata vem terra adentro, em sacos de cinquenta quilos que o filho descarrega do carro como quem carrega o peso do mundo. No domingo, enquanto o assado arrasta-se no forno a lenha, o miolo da casa fica a murchar no alguidar: é para fazer papas de sarrabulho, que só sabem bem se o sangue for mexido com colher de pau de oliveira.
Entre Vinhas e Nuvens
A vinha do Sr. Joaquim tem quatro patamares; a do vizinho, cinco. Entre eles corre um muro de pedra que já desabou duas vezes: nos dias de chuva vê-se a terra escorrer como café pingado. Em Abril podam-se as videiras com a faca de cabo vermelho; em Agosto faz-se a prova do açúcar: espremer três bagos na boca, se a língua formigar é sinal que o alvarinho já pede a colheita. A vindima começa sempre às seis, enquanto o orvalho ainda segurar a uva ao cesto; às onze param-se para o pequeno-almoço: pão com chouriça caseira e um copo de vinho branco que sabe a maçã verde.
No fumeiro, o presunto cura ao ritmo da chuva que entra pela lareira. Está lá desde o dia de São Martinho, quando o porco foi abatido na eira e a vizinha veio trocar o toucinho por uma galinha gorda. A fumaça de carvalho sobe lenta, deposita-se no telhado de colmo e desce outra vez, como se a casa respirasse o próprio cheiro de inverno.