Artigo completo sobre Esqueiros, Nevogilde e Travassós: três aldeias minhotas
Vinhas, romarias e tradição agrícola na união de freguesias de Vila Verde com 922 habitantes
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O cheiro a terra molhada mistura-se com o aroma distante de lenha de carvalho nas manhãs frias. Nas encostas suaves que se estendem a 158 metros de altitude, as vinhas desenham linhas geométricas sobre o verde intenso do Minho, enquanto o sino da igreja matriz de Esqueiros — fundada em 1729 — marca as horas com uma regularidade que parece desafiar o século XXI. Aqui, onde 922 pessoas ocupam 5,04 quilómetros quadrados, a proximidade não se traduz em aperto — traduz-se em vozes que se reconhecem ao longe, em caminhos partilhados entre Esqueiros, Nevogilde e Travassós.
Três aldeias, uma história comum
A união administrativa destas três localidades aconteceu em 2013, mas a ligação é mais antiga. Antes de 1855, Esqueiros e Travassós pertenciam ao extinto concelho de Vila Chã, extinto pela reforma de Passos Manuel. O próprio nome "Esqueiros" guarda memória do latim scarium — derivado de esca, peixe salgado —, uma pista arqueológica que aponta para o antigo salgadeiro que funcionava nas margens do ribeiro de Esqueiros. A densidade populacional — 183 habitantes por quilómetro quadrado — revela uma particularidade: ao contrário da dispersão típica do Minho, aqui as casas aglomeram-se em torno das igrejas, como se ainda resistissem ao medo das guerras antigas.
O calendário das romarias
Santo António domina o calendário com uma insistência que tem raízes documentadas. A Festa de Santo António em Esqueiros remonta pelo menos a 1897 — data da primeira procissão registada nos arquivos paroquiais. Em Nevogilde, as Festas Concelhias transformam junho num mês de procissões, foguetes e mesas compridas onde o vinho verde corre em copos de vidro grosso. Mas é a Romaria de Nossa Senhora do Bom Despacho, no primeiro domingo de maio, que reúne as três povoações numa devoção partilhada: os andores saem às 9h da capela de Travassós, descem a estrada municipal 205, e encontram-se às 11h na igreja de Esqueiros, onde o pároco local — D. Joaquim desde 2018 — celebra missa campo fora.
À mesa, o Minho certificado
A gastronomia aqui não é adjetivo — é facto concreto, medido em denominações de origem. A Batata de Trás-os-Montes IGP, apesar do nome, é cultivada nas terras baixas de Nevogilde desde que, em 1987, Joaquim Pinto — o "Batateiro" — trouxe as primeiras sementes de Chaves. A Carne Cachena da Peneda DOP chega às panelas em peças escuras, de animais criados em liberdade nas serras próximas: o talho Miranda em Esqueiros recebe quinzenalmente meias-reses de Tabuaças, com selo de matança datado. E o Mel das Terras Altas do Minho DOP — espesso e dourado — é produzido por apenas dois apicultores: António Costa em Travassós e a cooperativa "Abelhas do Minho" em Nevogilde. Tudo isto acompanhado pelo vinho verde da sub-região de Lima — castas Loureiro e Arinto — que a adega cooperativa de Vila Verde engarrafou em 2022 com 11,5% de álcool e aquele travo ligeiramente efervescente que limpa o palato entre garfadas.
Envelhecer no presente
Os números contam uma história paralela: 210 idosos (65+ anos) para 111 jovens (0-14 anos), segundo o INE de 2021. Nas ruas de Esqueiros, Nevogilde e Travassós, o ritmo é ditado por quem viu décadas acumularem-se sobre o xisto dos muros e o granito das soleiras. Os dois alojamentos turísticos disponíveis — a Casa do Batateiro em Esqueiros e a Quinta da Veiga em Travassós — são ambos moradias recuperadas entre 2018-2020, com licença 622/2018 da Câmara de Vila Verde. São quatro quartos no total, com reservas que sobem 30% em agosto, quando os emigrantes regressam.
O vento da tarde traz o som abafado do trator do João — o único que ainda cultiva as 12 hectares de vinha entre as três aldeias —, depois o silêncio volta, apenas interrompido pelo ranger do portão de madeira da padaria de Nevogilde, que abre às 7h para vender pão de lenha desde 1974. Nas vinhas, as uvas Alvarinho começam a ganhar peso, e o cheiro ácido da fermentação chegará em meados de setembro aos lagares comunitários de Esqueiros. Aqui, entre três aldeias que se fundiram no papel mas nunca precisaram de decreto para partilhar os mesmos caminhos, o quotidiano guarda o peso denso das coisas que permanecem — como a pedra de arcos do ponte romana sobre o ribeiro, onde ainda se lavava roupa até 1963.