Artigo completo sobre Lanhas: vinhas verdes e sino sobre granito em Vila Verde
Uma freguesia minhota onde o vinho verde se cruza com fumeiros tradicionais e festas de romaria
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O sino da igreja soa às sete da manhã, mas quem cresceu aqui já nem precisa de contar: o corpo acorda antes. O som rasteia pelos telhados de telha negra e entra pelas frestas das janelas de madeira que incharam com a chuva do Inverno. Ainda há dias em que o António, o campainheiro, sobe as escadas de pedra com o pé direito a doer-lhe da gota — mas sobe, porque alguém tem de puxar a corda que o pai dele puxou e o avô também.
Ao meio-dia, quando o sol aquece as paredes de granito, a terra ainda exala o cheiro a mijo de vaca e a folha podre que a enxada virou ontem. Não é perfume, mas é isto que nos lembra que o dia começou. Os caminhos de Lanhas não foram feitos para pressas: a calçada está solta, e uma parteira já me contou que partiu o tornozelo ali mesmo, junto ao muro da cisterna, quando ia atrás de um parto às três da madrugada.
Entre vinhas e fumeiros
As vinhas não sobem em latadas — descem. São os socalcos que o meu avô cavou à enxada, uns degraus acima da estrada municipal, onde o trator de ontem mal cabe. Em Setembro, a rapaziada da terrinha ainda vai para a vindima a troco de um prato de arroz de cabidela e um copo de vinho branco que o Sr. Armindo serve à pressa, porque “quem está a trabalhar não está a beber, está a recuperar”. A uva é azal e arinto, mas quem aqui vive chama-lhe “branco de Lanhas” — nem sabe que tem nome científico.
No celeiro do Zé Manel, o fumeiro está pendurado desde Novembro. A chouriça de carne cachena fica lá até ao dia de Reis, quando a mulher dele a corta em rodelas finas e a serve com broa quente, directamente do forno a lenha. O mel não é DOP nenhum — é do seu António, que tem colmeias atrás da capela e que vende em garrafões de vidro que já serviram para vinho. O sabor é a terra, não a certificação.
A Romaria de Nossa Senhora do Bom Despacho é no domingo mais próximo de 15 de Agosto. Antes, na véspera, as mulheres da aldeia ainda vão à capela limpar o chão com água e lixívia, e pendurar os panos de rendas herdados. Não é para o Instagram — é para que a padraia não escorregue com o sapato de salto que calça uma vez por ano.
Onde o granito encontra o quotidiano
A casa onde nasci tem a porta de madeira pintada de verde-coruja, mas o tintol já descascou nos cantos. O granito está escuro à sombra, claro onde o sol bate o dia inteiro. Ao lado, o muro que o meu bisavô ergueu sem cimento ainda segura, embora o chicho que lá mora já tenha feito buraco para o gato entrar. Os turistas que aparecem — poucos — perguntam se há wc. Não há. Há uma casa de banho no café, mas o café só abre quando o Joaquim acorda, e isso depende da ressaca.
Para dormir, há um quarto na casa da D. Aurélia. Tem televisão por cabo, mas o comando está sem pilhas. O pequeno-almoço é pão de forma tostado com manteiga da Quinta e doce de tomate caseiro. Se quiser rojões, tem de avisar no dia anterior, porque o porco só se mata aos sábados.
O peso do silêncio
Quando o sol se põe atrás do monte do Viso, a luz fica cor de mel antigo. É nessa hora que o silêncio se instala — não o silêncio absoluto, mas o das coisas que não precisam de ser ditas. O cão do Sr. Alfredo deixa de ladrar, o trator do vizinho já está na garagem, e só se ouve o ranger da porta de aluminío da padaria, que ainda abre às sete da manhã seguinte, como abriu ontem e abrirá amanhã.
Não há nada para ver. Há é para sentir: o frio que sobe dos pés, o cheiro a fumo que sai da chaminé daquela que foi casa de meus pais, o som do passo próprio na calçada que já conhece o peso do corpo. Quando o sino volta a tocar, não são as horas que se contam — é o tempo que fica.