Artigo completo sobre Oriz: onde duas paróquias resistem em granito e fé
Santa Marinha e São Miguel mantêm igrejas e tradições distintas numa freguesia de 509 almas
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O sino de Santa Marinha bate às onze e meia, não ao meio-dia: é o badalo gasto que atrasa o ritmo. O eco desce o caminho de chão batido, entra no souto onde as vacas da Lurdes pastam e morre no ribeiro. Já o de São Miguel só toca aos domingos, e mesmo assim o padre tem de puxar duas vezes, porque a corda escorrega da campainha.
A Torre dos Coimbras não é monumento para ninguém cá: é o sítio onde os miúdos sobem para beber imperiais escondidos. A pedra está quente até ao entardecer; sente-se o cheiro a musgo queimado e a cortiça velha das garrafas. Vista de cima, a freguesia é um tapete de telhas desiguais: vermelho novo no lugar do Toino, meia telha metida onde chove na casa da Dona Laura.
Dizem que há 273 casos para recuperar, mas quem conta são os papéis da Câmara. Na prática, cada um vai tapando o buraco com o que tem: chapas de zinco no lugar da cerâmica, janelas de pvc onde devia haver madeira. A Casa dos Carvalhais serve agora de armazém a trulhas e a um tractor John Deere verde-limão que o Rui comprou em segunda mão.
Nas festas, o que se ouve é a banda filarmónica de Prado que toca o mesmo programa há trinta anos: marcha de Santo António, vira da Primavera, e no fim o “São Miguel” que obriga os velhos a levantar-se e bater o compasso com o bengaleiro no chão. A chouriça é da Mariana, assada no lagar da aldeia onde ainda se vai buscar lenha de camião. Quem não gosta de porco come sandes de sardinha e bebe fino da lata, porque a cerveja a granel acabou quando o António fechou o café.
O vinho não tem nome de quinta: é branco de 2022, feito no lagar do Zé, com uvas loureiro que o filho trouxe de Parada de Gatim. Tem giz, tem granito, tem o azedo que faz estremecer a cara quando se bebe às cepas. A carne cachena só aparece em dias de boda, comprada ao Quim da Peneda que traz os novilhos de camião atrás de cabeça. O resto do ano é frango da terrina e feijão branco com couve, temperado com a banha que se vai guardando na arca.
Às cinco da tarde, quando o nevoeiro desce do Gerês, o cheiro a estiércido mistura-se com o fumo das fogueiras de poda. É nessa hora que se vê quem ainda cá fica: o Sr. Albino leva as galinhas para o poleiro, a Alda varre a porta e põe a cadeira virada para a estrada, esperando o neto que vem de Braga aos fins-de-semana. Os cães ladram uns para os outros, e o silêncio que vem a seguir é tão grande que se ouve o bater das asas da andorinha que entra na igreja pelo buraco da torre.
Não há placas a indicar caminhos: quem quer ir à Capela da Senhora da Conceição pergunta na primeira porta. A ladeira é de lajes soltas, escorregadias de musgo; no fim, a fonte tem água tão fria que dói nos dentes. De lá em cima avista-se o Minho inteiro, mas ninguém fala de miradouros: fala-se é do tempo, da chuva que ainda falta para encher a barragem, do milho que está curto de água e das macieiras que já deitaram flor cedo demais.
Quando o sol se põe atrás da Torre, a pedra fica cor de mel e a erva começa a cintilar. É o sinal para as raparigas do Grupo de Jovens desligarem o som do telemóvel e irem para casa, porque aqui ainda se janta às oito e meia. O sino não toca mais: é o grilo que assume o turno, e o vento que traz o cheiro a terra regada, algures entre o muro da igreja e o caminho onde o João estaciona o carro com as portas abertas, para ouvir a Rádio Renascença enquanto descasca o limão para a bica.