Artigo completo sobre Prado: onde o granito guarda 653 vidas no Alto Minho
Entre romarias centenárias e sabores DOP, esta freguesia de Vila Verde vive ao ritmo dos sinos
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O som do sino da igreja — só um, o de broa — desce o cabeço e quebra-se no ribeiro do Lobo antes de subir para o Couto. Em Prado, a granita das eiras ainda guarda o calor do dia quando o vento das serras traz o cheiro da silva e do milho verde que se queima nas fogueiras de S. João. As ruas não têm nome: diz-se «a rua do Fontão», «a do Cruzeiro», «a de cima da escola», e cada uma sobe ou desce o suficiente para sentir as coxas. São 653 almas, mas na taberna só cabem vinte e tal; os outros ficam na esplanada do Lopes, debaixo do nogueira.
As três voltas do ano
A primeira é no domingo mais próximo de 13 de junho: Santo António. A banda de Vila Verde sobe de camioneta, desafina o «Hino da Alegria» e ninguém repara. No largo, os pitos de carne de porco à moda da terrina esgotam-se antes das três. A segunda volta é a festa do concelho, em julho, quando os emigrantes voltam com matrículas de França e suíças cheias de autocolantes. A terceira é a romaria do Bom Despacho, a 8 de setembro: levam a Nossa Senhora em procissão até ao Cruzeiro do Couto, onde se lançam três cânticos e se reparte broa benta. Depois, cada um leva a imagem de volta à igreja — quem a segura ao ombro sabe que é a vez dele.
O resto do ano o adro serve para secar milho e para as crianças rodarem à bola entre os túmulos dos antepassados.
O que se come (e não se arranja fora)
A Cachena não é rótulo — é a vaca pequena que os irmãos Gerardo ainda descem do Gerez em setembro. A carne quase roxa leva apenas sal grosso e três galhas de alho; vai para a grelha de ferro que o Zé Mário tem na cave, onde o fumo sai por uma janela que dá para a estrada. Come-se com batata de «bolota» da horta, regada ao azeite novo que ainda arde na garganta. Quando acaba, serve-se pão de milho torrado, passado no toucinho derretido.
O mel é do Cota, que tem colmeias no Alto do Pisco. Nem sempre é DOP: às vezes é «de urze», «de giesta» ou «deves ter pena, este ano foi mau». O que interessa é que cristaliza em flores brancas e cheira a resina.
Vinho verde há: o branco do Seixas, com garrafa de 50 cl e rolha de cortiça que rebenta ao domingo. O tinto é raro — só mesmo o que o Quim do Souto faz na adega do pai, com uvas de ramo teso.
Onde se dorme (e o que se ouve)
São três casas de granita recuperadas: a do Outeiro, a do Ribeiro e a do Forno. Nenhuma tem televisão no quarto; todas têm colchas de crochet e uma garrafa de aguardente no canto, «para o frio». À noite, quando se apagam as luzes, ouvem-se os cavalos do Curral a ranger a cadeia e, mais lá em cima, o grilo do telhado que ninguém tem coragem de mandar embora. Se chove, o barulho é maior: as calhas são de chapa zincada e fazem o compasso para adormecer.
O que sobra quando o sol se põe
Às nove e meia, a luz rasante bate na fachada da casa do Migas e transforma o xisto em lâmina de fogo. A raposa atravessa a estrada Nacional 308, entre o bar e o cemitério. Na bifurcação, o cruzeiro de 1892 ainda tem a pintura branca que o António do Carmo lhe pôs no ano passado — mas já se lhe vê a pedra no joelho de Nossa Senhora. Alguém acende a lareira; cheira a carvalho verde, que crepita e cospe faúlhas. Não há pressa: amanhã há neblina e a terra estará mole para a batateira.