Artigo completo sobre Ribeira do Neiva: onde o rio desenha a paisagem minhota
Conheça a União das freguesias da Ribeira do Neiva em Vila Verde, Braga: património rural, tradições ancestrais e paisagens moldadas pelo rio.
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O som da água chega primeiro — não é murmúrio, é respiração. O Neiva abre e fecha garganta entre os caniços, e quem desce a estrada de Gondiães sente-o no peito antes de ver. Abaixo, as pesqueiras de pedra — armadilhas que os avós chamavam “covas do rio” — aparecem em agosto, quando a água baixa e os miúdos lá descem descalços para apanhar barbos com as mãos. Sessenta espigueiros? Contei cinquenta e nove: um caiu no Inverno passado, vitimado pela torrente e pela pressa do dono que não quis reforçar a base. O milho ainda seca nos restantes, mas agora cobre-se com redes de plástico azul porque os melros aprenderam a abrir as portelas.
Quatro aldeias, um rio
A união é papel: quem vive aqui continua a dizer “vou a Moure” ou “desço a São Paio”. A Ponte de São Paio, essa, é obra de gente — notam-se ainda as marcas do cinzel nos custamentos, e, na margem norte, uma pedra com a data de 1753 e as iniciais do arruador. Dizem os mais velhos que, se passares às três da manhã de sexta-feira santa, ouves marteladas no ar: são os “compadres” a acabar o que começaram em dia de sol. Verdade ou não, ninguém arrisca parcar o carro no meio do tabuleiro depois das dez da noite.
Comer o que a terra dá
O cabrito vai ao forno às cinco da manhã, depois da missa dominical; o forno é comunal, fica atrás da cisterna, e quem chega primeiro marca lugar com um ramo de louro. O cheiro da pele a torrar mistura-se com o fumo da vinha que arde ainda verde. Na tasquinha de Portela das Cabras servem sarrabulho sem tomate — “o vermelho é do sangue, não da lata” — e a morcela é cortada grossa porque “fininha só serve para encher dentes”. Os “santos” já não são só em junho: as netas levam-os para vender ao Mercado de Braga, embalados em película aderente, e a receita do doce é segredo que nem o genro conhece. O vinho verde é Loureiro, sim, mas há quem faça mistura com a casta Trajadura para o vinho não “morder” a garganta nos dias de muito calor.
Trilhos e água corrente
O trilho é quinze quilómetros se o fizeres todo, mas ninguém o faz: desce-se até ao Açude de São Paio, dá-se um mergulho, e sobe-se outra vez pela estrada municipal porque o passeiro está cheio de urtigas. A praia fluvial de Gondiães tem balneários novos — abrem só em julho e agosto, e o candeeiro de rua está sempre a fundir lâmpadas: a câmara compra de dez em dez. A garça-real existe, mas quem vê todos os dias é a garça-branca; põe-se no poste da iluminação como se fosse dona do sítio. Em outubro, o souto é disputa: quem chegar cedo enche o capacho e ainda leva o ramo para o caldo; quem dorme à soma fica com os ouriços vazios e a camiseta cheia de picos.
Calendário de fogueiras e feiras
Santo António começa na véspera, com o cheiro a sardinha a subir a Rua do Calvário. Os bombos são os mesmos de sempre — os couros já têm buracos, mas o António do Cavaquinho garante que “o som é que importa, não a pele”. No Domingo Gordo os rapazes já não cantam; têm WhatsApp e combinam casa a casa para juntar o que der: ovos, um pacote de farinha, talvez uma garrafa de aguardente. A Feira do Cavalo de Moure é terceiro domingo de agosto; trazem é muares agora, porque os puros custam de manter. A feira mensal continua na segunda: abrem sete bancas de queijo, duas de ferramentas e uma de roupa chinesa; o café serve bica a sessenta cêntimos e deixa entrar cão, desde que não lata.
Ao entardecer, quando o sol desce atrás do Carvalho de São Sebastião, o xisto aquece e solta um cheiro a poeira quente que me lembra os pés descalços de miúda. Os sinos de Gondiães dobram sete badaladas — hora de fechar as galinhas — e o Neiva, lá em baixo, leva a cor do ferro-velho. Nesse instante, não há nome para o concelho nem para a freguesia: há só o cheiro do rio e o granito a arder, e é suficiente para saber onde estou.