Artigo completo sobre Valdreu: Vale de Vinhas e Rituais no Minho Profundo
Freguesia de 434 habitantes em Vila Verde preserva tradições, vinho verde e arquitectura de granito
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O sino toca às nove, não às seis. Soa três vezes, nunca duas. Quem cresceu aqui não precisa de relógio.
Valdreu fica a 12 km de Vila Verde, mas leva-se 20 minutos a chegar porque a estrão municipal é estreita e tem curvas apertadas. A freguesia tem 434 habitantes, 182 com mais de 65 anos. A escola fechou em 2012. Os miúdos vão agora para a EB de Ribeiro, 7 km abaixo.
O topónimo vem do latim Vallis Rueda — vale da Rueda — mas ninguém sabe quem foi Rueda. Os primeiros documentos são do século XVI, mas o povoamento é anterior. A igreja matriz de São Vicente tem campanário do século XVIII e retábulo barocco que veio de França numa carroça de bois. Não é monumento nacional, mas é o que temos.
As encostas viradas a sul guardam vinha para vinho verde branco. As vinhas são pequenas — 0,5 a 1 hectare — e quase todas pertencem a pessoas com mais de 60 anos. A vindima faz-se em setembro, manualmente. Quem não tem família contrata vindimadores de Vila Verde: 40 euros por dia, almoço incluído.
Na parte baixa planta-se milho para broa e batata para aguardente. Há ainda três lagares a funcionar com prensas de madeira. O mel é DOP Terras Altas do Minho — 8 euros o quilo, vendido na porta de casa. A carne cachena vem da Peneda, mas aqui chamam-lhe apenas "vaca". Serve-se em bitoque ou em ensopado, nunca em bife.
Três vezes por ano a freguesia enche:
- 13 de junho: Santo António
- Último fim-de-semana de junho: Festas Concelhias
- 15 de agosto: Romaria de Nossa Senhora do Bom Despacho
Os emigrantes vindos de França suíça ocupam as casas dos pais. Montam-se 30 mesas na rua principal — comprida de 200 metros — e serve-se sarrabulho de porco, rojões com papas de sarabulho e vinho branco em copos de 200 ml. A filarmónica de Vila Verde toca marchas populares. Acaba à uma da manhã, porque o presidente da junta tem de levantar às seis para regar a vinha.
Não há trilhos marcados. Há caminhos de terra que ligam Valdreu a Gondiães (3 km) e a Ribeiro (5 km). São planos, servem para ir ao médico ou levar o leite para a cooperativa. Leve água: não há cafés no caminho.
O autocarro da Transdev liga a Vila Verde duas vezes por dia: 7h30 e 17h30. O bilhete custa 2 euros. Quem perde fica a pé. De carro, estaciona-se na entrada da aldeia — as ruas são demasiado estreitas para virar.
O único sítio para comer é o café O Cantinho, aberto das 7h às 20h. Serve café por 0,60 euros, imperial por 1 euro e sandes de presunto por 2,50. Fecha à segunda. Não há alojamento. O Airbnb mais próximo fica em Vila Verde.
Quando o sino toca às 21h30, é aviso para apagar as luzes. As crianças já dormem, os cães deixam de ladrar. Só se ouve o rio Homem, lá em baixo, e o vento nas chaminés.