Artigo completo sobre Infias: onde o granito transpira e o sino marca o tempo
Freguesia de Vizela com chafariz do século XVIII, vinhas em socalco e 42 grafias históricas
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O granito do chafariz da Água Nova transpira humidade mesmo em dias de sol pleno. A bica corre sem pausa desde 1753, data gravada na pedra que ainda hoje se lê, alimentando um tanque onde se lavam couves e se enchem regadores. Ao fundo, no adro da igreja, o sino toca as três da tarde — som metálico que ricocheteia nos muros das casas senhoriais e se perde entre os terraços de vinha que descem até ao vale do Ave. Infias respira pelo ritmo da água e do sino, duas medidas de tempo que aqui nunca foram abolidas.
A freguesia que se escreve de quarenta e duas maneiras
Entre 1527 e 1911, o nome desta freguesia aparece grafado de quarenta e duas formas diferentes nos forais, processos de habilitações e regimentos das juntas — testemunho da oralidade que sempre precedeu a escrita. O topónimo, de raiz incerta, pode derivar de "infa", termo que no "Diccionario Geográfico de Portugal" (1756) designa "terra baixa e fértil", ou estar ligado a zonas húmidas de vegetação densa. O que não muda é a paisagem: campos de milho em socalcos que sobem até aos 300 metros, vinhas de castas Azal e Loureiro plantadas em solos graníticos, e o ribeiro de Fermil que atravessa a freguesia com água limpa e poços tradicionais onde ainda se mergulha nos dias de calor intenso. A Igreja Paroquial de Santa Maria, reconstruída entre 1723 e 1745, ergue-se no centro com retábulo de talha dourada de 1734 e painéis de azulejo de 1742 que captam a luz da tarde. No adro, um monumento ao Padre Adelino Rosas — pároco de 1958 a 1992 — recorda quem impulsionou a construção da escola primária em 1963 e da cooperativa agrícola em 1968.
O trilho que sobe até Santa Ana
O caminho que liga a igreja à Capela de Santa Ana, no Monte de Alijó, percorre cinco quilómetros entre eiras, moinhos de água abandonados e muros onde ainda se veem as levadas de pedra que abasteciam Infias e Caldas de Vizela. A capela, construída em 1920 por iniciativa de José Alves da Silva em terreno da família, só passou para a paróquia em 1960, depois de peregrinações de aldeia inteira feitas a pé com velas acesas. A 26 de Julho, a festa de Santa Ana repete o ritual: procissão até ao monte, missa campal, bolinhos de amêndoa e gila vendidos à porta, bailarico popular que se prolonga até escurecer. Do alto, a 285 metros, o olhar alcança Vizela inteira e os terraços de vinha que desenham curvas de nível no vale. Carvalhos e sobreiros cobrem a encosta, e o silêncio só é quebrado pelo vento entre as folhas.
Rojões no forno e pêras de São Bento
Na cozinha de Infias, os rojões estufam em vinho branco com alho e louro, servidos com fatias grossas de broa de milho ainda quente. O bacalhau vai ao forno de lenha com batatas cortadas à "rabanada", técnica que as deixa estaladiças por fora e macias por dentro. A sopa de nabos e feijão branco fuma com toucinho, e o bolo de São Bento — folar doce recheado com canela, noz-moscada e açúcar mascavado — aparece na festa de 21 de Março, quando se benzem os campos e se distribuem as "pêras bento", doces de massa de ovos moldados à mão. O vinho verde da sub-região de Vizela corre às refeições, e a aguardente de medronho arde nos alambiques artesanais no fim do Verão, destilada em segredo que passa de geração em geração.
Memória gravada em pedra e água
A ponte sobre o ribeiro de Fermil, de traça setecentista, guarda gravado o brasão de António da Silva Araújo, emigrante em Paris que financiou a reparação da igreja e do chafariz em 1925. Nas casas senhoriais de granito do século XIX, outros brasões testemunham famílias que partiram para o Brasil e França mas nunca cortaram o vínculo. A professora e etnógrafa Maria José Oliveira recolheu essas histórias no livro "Memórias de Infias" (2003), preservando tradições orais que de outro modo se perderiam. Durante a construção da Variante de Vizela em 1998, silos medievais em pedra emergiram do solo — prova de cultivo de cereais muito antes da chegada do milho ao Minho no século XVI.
A ciclovia do Vale do Ave passa pela margem da freguesia, ligando Vizela a Guimarães num percurso onde se alternam pinhal, vinha e campos abertos. Nos cafés locais, o bolo de São Bento acompanha o café cheio a meio da manhã. Lá fora, a água continua a correr no chafariz da Água Nova, fria e constante, enquanto o granito vai ganhando musgo nas juntas. Infias mede-se em gestos que se repetem: encher o regador, tocar o sino, subir ao monte com velas acesas.