Artigo completo sobre Tagilde: pereiras, São Bento e lameiros de Vizela
Freguesia de 1680 habitantes celebra tradição das pêras entre hortas familiares e ribeiros antigos
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A luz da manhã atravessa as nuvens baixas e acaricia o adro da igreja, onde as pereiras ainda guardam o cheiro do Outono passado. Há um silêncio que se aprende: é o arrastar cauteloso da vassoura de Isabel, que varre o largo antes de abrir a taberna. Tagilde acorda assim, sem alarido, entre o verde molhado dos campos e o granito que aquece à medida que o sol sobe.
São Bento e o calendário das pêras
A Festa de São Bento das Pêras não é data no cartaz - é quando o ar muda de sabor. Em Julho, o pão-feito ao léu mistura-se com o fumo das sardinhas e a doçura das pêras bêbedas que os rapazes roubam dos pomares abandonados. A procissão desce a ladeira com o andor a abanar, e as mulheres de cabeça descoberta seguem rezando em voz baixa. Depois, na praça, o bailarico até às três, com o acordeão do Zé Manel a lembrar aos mais velhos as noites de antigamente. Quando os foguetes esmorecem, fica o cheiro a pólvora agarrado à roupa e a promessa de que, no ano que vem, se repete tudo outra vez.
Raízes fincadas no verde
A vinha aqui é posta à prova: entre os soutos e os caminhos de pé posto, os parrais lutam com o granito e o vento do norte. Mas é no milho que a freguesia confia - as espigas ainda secam nos caniços de madeira que os avizinhados levantam juntos, em dia de lua nova. Na horta de Dona Aurélia, os tomates-coração crescem dobrados ao sol, e o cheiro da terra, depois da chuva, lembra-lhe o pai a lavrar com o boi no lameiro de cima.
O Rio Mau leva o nome que merece: de inverno leva tudo, de verão esconde-se sob as pedras. Mas é no Poço das Lavadeiras que as memórias ficam - ali onde as mulheres ainda batem a roupa, aos sábados, trocando segredos que a água leva mas não conta.
O quotidiano sem filtro
Às sete da manhã, o café do Quim já cheira a bica e a torradeira queimada. Lá dentro, o dialecto roça nas palavras: «Ó homem, trouxeste o fermento?» pergunta o Henrique, enquanto o pão ainda morno da padaria se desfaz nas mãos. Passam os tractores a abanar, levando o leite para a União de Freguesias, e as crianças atravessam a estrada a correr, com os livros à cabeça para não se molharem.
Na taberna, ao fim da tarde, o vinho branco de Tagilde - aquele que os de fora desconhecem - desce que nem água. O Zé do Tasco conta como, no tempo da outra senhora, se fazia o vinho pisado a pés, e a mulher dele, lá no fundo, ri-se porque sabe que ainda hoje ele guarda o lagar novo na adega, «só para as visitas».
Onde o granito guarda memória
As paredes de xisto e granito guardam o calor do dia e as histórias que não se contam a estranhos. No cruzeiro da Rua do Meio, ainda se vê a marca onde o António bateu com a moto, há trinta anos, quando vinha da feira em Vizela. As portas baixas exigem curvatura, e os umbrais estão polidos pelo toque das gerações que entraram e saíram sem pressa.
Quando o sol se põe atrás do Monte de Santa Luzia, a freguesia entra em tom de laranja. É então que o silêncio se faz pesado - não de ausência, mas de presença tranquila. O cheiro a lenha queimada vem das chaminés, e o cão do Sr. Alferes ladra na distância, avisando que é hora de jantar. Tagilde não pede para ser descoberta. Limita-se a ser, todos os dias, o lugar onde o pão ainda tem sabor de forno de lenha e onde o tempo, se lhe perguntarem, responde na voz rouca de quem já viu passar séculos de sol e chuva.