Artigo completo sobre Lagar D'el Rei: memórias de azeite e tributo medieval
Eucisia, Gouveia e Valverde preservam lagares centenários e tradições do planalto transmontano
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O azeite escorre sobre o granito inclinado do Lagar D'el Rei, canal medieval que já não recebe azeitona há décadas mas ainda conserva a memória oleosa das moendas devidas ao monarca. Em Eucisia, as paredes de xisto do velho edifício erguem-se entre silvas e medronheiros, testemunhas mudas de um tempo em que cada gota dourada pagava tributo. Ao longe, o vale da Vilariça desenha-se em terraços suaves, olivais prateados pontuando a ondulação entre os 400 e os 700 metros de altitude.
Três aldeias, uma só respiração
A união administrativa de 2013 juntou Eucisia, Gouveia e Valverde num território de 50,94 km² onde vivem 266 pessoas — número que esconde uma das maiores taxas de longevidade do concelho de Alfândega da Fé. A explicação dos mais velhos aponta para o ar puro do planalto e para a dieta transmontana: ensopado de borrego Terrincho DOP no domingo, migas com couves e toucinho entre semana, castanha da Terra Fria DOP no caldo ou assada no borralho. Nas três igrejas paroquiais — São Paio em Eucisia, São Bartolomeu em Gouveia, Nossa Senhora da Encarnação em Valverde — os retábulos barrocos guardam a devoção de séculos, enquanto as capelas de São Sebastião resistem dispersas pelo monte, alvo de promessas cumpridas no Inverno rigoroso.
Pedra sobre pedra, voto sobre voto
O Cruzeiro de Gouveia ergue-se em granito cinzento do século XVIII, marcando o antigo traçado interior do Caminho de Santiago que evitava o vale encaixado do Douro. No topo, um pequeno montículo de seixos revela o costume local: cada promessa cumprida merece uma pedra depositada, gesto repetido há gerações. Mais acima, o Povoado Fortificado do Pinhal e o Castelo de Gouveia — pequeno castro de altitude — oferecem vistas rasgadas sobre a Vilariça, enquanto o Curral da Cerca, estrutura proto-histórica de defesa, exibe muralhas de xisto negro onde o musgo desenha mapas imaginários.
Fumo, chama e caldo de São Bartolomeu
A 17 de Janeiro, a noite de Santo Antão da Barca acende gravetos em redor das habitações — fogo protetor dos animais e das colheitas, ritual que afasta o mau-olhado e aquece os ossos. Em Agosto, Gouveia distribui caldo fumegante na festa de São Bartolomeu, enquanto Eucisia celebra São Paio com procissão e baile sob as estrelas. Outubro traz a feira agrícola de Valverde, onde se vendem queijo Terrincho DOP, azeite de Trás-os-Montes e mel da Terra Quente DOP em frascos de vidro que capturam o dourado espesso das urzes. Nas mesas, salpicão de Vinhais IGP corta-se em rodelas translúcidas, acompanhado de broa de milho ainda morna.
Trilhos que ligam o que a administração juntou
O PR3 "Trilho do Pinhal", seis quilómetros entre o cruzeiro e o miradouro do Pinhal, serpenteia por muros de xisto onde florescem orquídeas silvestres e narcisos-de-cabeça-pequena na Primavera. A Ribeira de Gouveia murmura entre choupos e salgueiros, alimentando poços onde bebem javalis ao crepúsculo. Nas feiras mensais — primeiro sábado em Gouveia, terceiro domingo em Valverde — vendem-se colheres de pau de medronho, cestos de vime trançado e amêndoa Douro DOP torrada em tacho de cobre.
Ao entardecer, o cheiro a lenha de azinheira sobe das chaminés, misturando-se com o aroma adocicado das filhós de abóbora que fritam em azeite velho. No Centro de Interpretação de Valverde, as maquetas dos castros reconstroem muralhas que já não existem — mas basta fechar os olhos junto ao Curral da Cerca para ouvir o vento raspar o xisto como há três mil anos, obstinado e frio.