Artigo completo sobre Gebelim e Soeima: 299 almas entre xisto e silêncio
Duas aldeias de Alfândega da Fé onde o vento nos amendoais substitui o ruído e o tempo corre devagar
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O silêncio aqui tem peso. Chega-se a Gebelim e Soeima pelo asfalto estreito que serpenteia entre encostas de xisto, e o primeiro som que se ouve não é som — é a ausência dele. Apenas o vento baixo nos amendoais, o arrastar de um portão de ferro algures na distância, o eco do próprio motor que se cala quando se desliga a ignição. São 299 habitantes dispersos por mais de três mil hectares a 600 metros de altitude, e essa aritmética traduz-se numa coisa simples: espaço. Muito espaço entre as casas, entre as pessoas, entre os gestos.
A geometria do despovoamento
Os números contam uma história que dispensa adjectivos. Dezassete jovens, cento e vinte e dois idosos. Nove pessoas por quilómetro quadrado. As aldeias organizam-se em torno das capelas — Nossa Senhora das Neves, Nossa Senhora de Fátima, o Mártir São Sebastião, Santo Antão da Barca — e as festas em sua honra são os momentos em que o povoamento se adensa, em que as casas fechadas abrem janelas, em que há fumo nas chaminés que o resto do ano permanecem frias.
A pedra das fachadas guarda o calor do sol da tarde. Xisto escuro, cal branca descascada pelo tempo, madeira de castanho nas portas que rangem. Não há aqui a monumentalidade turística — apenas um imóvel de interesse público registado —, mas há a monumentalidade do quotidiano: muros de socalcos que sobem a encosta, eiras de granito polido por gerações de malhadas, cruzeiros de pedra nos cruzamentos de caminhos que já ninguém percorre a pé.
A despensa transmontana
A gastronomia é, aqui, um inventário de resistências. A Amêndoa Douro que cresce nos vales abrigados, o Azeite de Trás-os-Montes espremido nas lagares que ainda funcionam, a Azeitona de Conserva Negrinha de Freixo em salmoura grossa. Nos fumeiros pendem os enchidos de Vinhais — chouriça, linguiça, salpicão, presunto —, protegidos pela Denominação de Origem mas feitos como sempre se fizeram: com tempo, fumo de carvalho, paciência. O Borrego Terrincho pasta nas encostas, o Cabrito Transmontano nos lameiros, o Queijo Terrincho cura em caves frescas. A Castanha da Terra Fria cai em Outubro, o Mel da Terra Quente cristaliza nos potes de barro.
São quatro alojamentos registados — moradias que recebem quem procura exactamente isto: a ausência de programa, a libertação da agenda, o luxo de não ter nada para fazer senão caminhar entre olivais centenários, sentar-se num muro de pedra a ver o sol descer sobre os vales do Sabor.
O que fica
Ao fim da tarde, quando a luz rasante incendeia o xisto e alonga as sombras dos amendoais, há um momento em que tudo pára. Nem vento, nem cão a ladrar, nem tractor ao longe. Apenas o peso do ar fresco que desce da serra e o cheiro a terra seca, a lenha que alguém acende numa lareira invisível. É um silêncio que não pede preenchimento — aceita-se, respira-se, leva-se colado à pele quando se regressa ao asfalto largo.