Artigo completo sobre Fumeiro e Xisto nas Serras de Alfândega da Fé
Parada e Sendim da Ribeira: território de produtos certificados e tradição transmontana
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O fumo do fumeiro escapa pelas telhas e dissolve-se no ar frio da manhã. Nas caves de pedra, os enchidos pendem alinhados — chouriças escuras, salpicões cobertos de pimentão, linguiças que aguardam o tempo certo. Aqui, na união de Parada e Sendim da Ribeira, a 347 metros de altitude sobre os vales de Alfândega da Fé, a gastronomia não é folclore: é economia, calendário, razão de ser.
A despensa transmontana
Os números contam a história melhor que qualquer adjectivo: Salpicão de Vinhais IGP, Chouriça de Carne de Vinhais, Presunto Bísaro. Depois, os queijos — Terrincho DOP e Queijo de Cabra Transmontano —, que nascem dos rebanhos criados nas encostas xistosas. O Borrego Terrincho DOP e o Cabrito Transmontano pastam entre amendoeiras e castanheiros, cujos frutos também carregam o selo de origem: Amêndoa Douro DOP, Castanha da Terra Fria DOP. Nas prensas, o Azeite de Trás-os-Montes DOP; nos potes de vidro, a Azeitona de Conserva Negrinha de Freixo DOP. O Mel da Terra Quente DOP fecha o inventário. Esta concentração de produtos certificados não é acaso — é a memória viva de técnicas que atravessaram gerações sem pressa.
O calendário dos santos
A freguesia organiza-se em torno de quatro festas: Nossa Senhora das Neves (5 de Agosto), Nossa Senhora de Fátima (13 de Maio), o Mártir São Sebastião (20 de Janeiro) e Santo Antão da Barca (17 de Janeiro). Os adros enchem-se, os foguetes rasgam o silêncio dos vales, as procissões percorrem caminhos de terra batida entre muros de xisto. Não há grande espectáculo — apenas a devoção mariana e aos padroeiros populares que marca o ritmo do ano. As capelas, caiadas de branco, pontuam a paisagem como balizas de fé. A de Santo Antão fica na Barca, junto ao rio Sabor; a de São Sebastião em Parada; as duas ermidas dedicadas a Nossa Senhora estão em Sendim da Ribeira e no lugar de Pombal.
Território em contracção
Duzentas e oito pessoas distribuem-se por 25,38 quilómetros quadrados — uma densidade de 8,2 habitantes por quilómetro quadrado que torna cada encontro humano um acontecimento. Dezasseis jovens até aos 14 anos, setenta e sete idosos com mais de 65. Os números desenham o futuro com traço fino: em 1991 eram 522, em 2001 desceu para 380, em 2011 para 285. Três alojamentos em moradias oferecem cama a quem queira mergulhar neste quotidiano sem pressa, longe das rotas turísticas saturadas — o da Casa do Lavrador em Parada, os dois da Barca, todos recuperados em casas de xisto abandonadas.
O sabor do lugar
À mesa, os vinhos da região de Trás-os-Montes — brancos de código de produção PT-TM-01, tintos de PT-TM-02 — acompanham o borrego assado no forno a lenha, o cabrito guisado com ervas do monte, os enchidos cortados à faca. O pão de centeio, escuro e denso, serve de tábua para o queijo curado de leite de cabra que se faz em Sendim desde que a memória dá conta. A castanha da Terra Fria entra na sopa de "papas de milho" com feijoca, nos doces de "castanha de ovos", assada ao lume na "castanhada" de São Martinho. A amêndoa Douro quebra-se entre os dedos para entrar no "biscoito de amêndoa" que as mulheres ainda fazem no dia de Todos-os-Santos.
O sino da igreja de Parada, fundada em 1566 e reconstruída após o terramoto de 1755, toca ao meio-dia. Na adega da cooperativa de Sendim, alguém prova o azeite novo da colheita de novembro, deixando escorrer o fio dourado sobre a palma da mão antes de levar à boca. O sabor é intenso, ligeiramente picante, exactamente como deve ser — com notas de folha de oliveira fresca e um final amargo que arranhava a garganta, sinal de polifenóis em quantidade.