Artigo completo sobre Fumo e Xisto na Terra Fria de Pombal e Vales
União de freguesias onde o fumeiro marca o tempo e a tradição resiste na altitude
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O fumo ergue-se devagar do fumeiro, desenhando espirais lentas contra o céu pálido de Janeiro. Nas traseiras da casa, pendurados em varas de castanho, os salpicões e as chouriças ganham cor escura ao ritmo da lenha de carvalho. Aqui, a 586 metros de altitude, o frio da manhã morde a cara e o silêncio só se quebra com o ladrar distante de um cão e o tilintar metálico de um sino ao pescoço de uma cabra.
A União das freguesias de Pombal e Vales nasceu em 2013 da fusão administrativa de duas povoações que sempre viveram da mesma terra dura, dos mesmos montes de xisto e das mesmas depressões onde se abrigam os vales que deram nome a uma delas. Pombal — cuja designação aparece em documentos de 1258 como "Pombar" — e Vales, cujo nome aparece em 1294 como "Vallis", partilham desde o século XIII uma ocupação documentada nas Inquirições de Afonso III. Cento e quarenta e sete habitantes distribuem-se hoje por estes 15,24 km² onde a densidade humana é baixa mas a densidade de memória é alta.
O sabor concentrado da Terra Fria
A mesa transmontana aqui não é retórica. É Borrego Terrincho com Denominação de Origem Protegida assado ao forno de lenha, é Cabrito Transmontano estufado com batatas de sequeiro, é Queijo Terrincho DOP curado que range nos dentes e deixa um travo intenso de pasto seco. Os enchidos — Salpicão de Vinhais com indicação geográfica protegida, Chouriça de Carne — têm a cor quase negra de quem passou semanas no fumo, temperados com colorau de Murça e alho de Trás-os-Montes. O Azeite de Trás-os-Montes AOP escorre dourado e espesso sobre o pão de centeio, e as sobremesas vêm da Castanha da Terra Fria com indicação geográfica protegida, assada ou cozida, e do Mel da Terra Quente que adoça as noites compridas de Inverno.
O calendário das invocações
Quatro festas marcam o ano litúrgico e social: Nossa Senhora das Neves (5 de Agosto), Nossa Senhora de Fátima (13 de Maio), o Mártir São Sebastião (20 de Janeiro) e Santo Antão (17 de Janeiro). Cada celebração traz a procissão pela estrada de terra batida, a missa campal onde os idosos ocupam os primeiros bancos, o baile popular à noite onde ainda se dança ao som de concertinas. São momentos em que os 64 habitantes com mais de 65 anos — quase metade da população — se encontram com os nove jovens que restam, e com quem voltou da emigração para três dias de Agosto.
A luz da tarde bate nas fachadas caiadas de branco, projectando sombras compridas sobre a calçada irregular. Ao longe, o perfil recortado da serra de Bornes desenha-se contra um céu que já ameaça chumbo. Na adega comunitária, alguém prova o vinho novo, torce a boca, acena que sim. O gosto ácido da Amêndoa Douro fica na língua. E no fumeiro, o fumo continua a subir, paciente, desenhando no ar a única pressa que este lugar conhece.