Artigo completo sobre Vilarelhos: quatro festas que marcam o ano na Terra Fria
Entre granito e devoção, uma freguesia transmontana vive ao ritmo das celebrações religiosas
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A luz da manhã entra oblíqua pelas frestas das portadas de madeira. Nas casas de granito de Vilarelhos, o silêncio da Terra Fria quebra-se apenas com o som distante do sino da igreja matriz — São Vicente, mandada construir em 1758 pelo cónego Manuel de Sampaio, e que ainda hoje marca as horas. A 214 metros de altitude, 217 pessoas mantêm vivo um território de 1.103 hectares onde o frio da pedra ao toque é real, mesmo quando o sol já subiu no horizonte transmontano.
O calendário devocional
O ano em Vilarelhos mede-se pelas festas. Quatro celebrações religiosas estruturam o calendário da comunidade: a 5 de agosto, a Festa da Nossa Senhora das Neves, cuja procissão desce pela Rua da Igreja até ao cruzeiro de pedra do século XVIII; em 13 de maio, a Festa de Nossa Senhora de Fátima, introduzida após 1917 por famílias que partiram para o Brasil e regressaram; no terceiro domingo de Janeiro, a Festa do Mártir S. Sebastião, padroeiro da confraria que tem sede na capela de S. Sebastião, construída em 1683; e a 17 de janeiro, a Festa do Santo Antão da Barca, quando se abençoam os animais no adro da igreja.
Nestas datas, a população — onde os idosos são 91 e os jovens até 18 anos apenas 18 — multiplica-se. As casas enchem-se de familiares que regressam de Bragança, do Porto, de França. As mesas alongam-se com ovo-à-malbar, rojões ao estilo de Vilarelhos e o bolo de azeite que Dona Natália, de 87 anos, faz no forno comunitário desde 1954.
A despensa transmontana
A gastronomia aqui não é apenas tradição: é denominação de origem controlada. Vilarelhos integra a sub-região do Planalto Mirandês, onde o Borrego Terrincho DOP pastoreado nas matas de carvalho e sobreiro ganha peso até aos 12-14 kg. Nas quintas de granito, as cabras Serrana Negra produzem o leite para o Queijo de Cabra Transmontano DOP que cura nas eiras durante 60 dias.
Nos fumeiros das habitações dispersas, pendem desde novembro o Presunto Bísaro de Vinhais IGP — curado no ar frio que desce do vale do Sabor — e a Chouriça de Carne de Vinhais, cujas receitas se transmitem de mãe para filha: 70% de carne de porco, 30% de toucinho, colorau da terra e vinho branco. A Castanha da Terra Fria DOP, introduzida pelos frades beneditinos do Mosteiro de Castro de Avelãs no século XIII, ocupa ainda 42 hectares nos soutos que sobreviveram ao abandento dos anos 60.
Densidade e silêncio
Com 18 habitantes por quilómetro quadrado, Vilarelhos pertence ao mapa do interior profundo que perdeu 62% da população desde 1981. As 152 habitações dispersas pelo território — cada uma com o seu quintal, o seu forno de lenha, o seu tanque de lavar — contam-se pelas mãos. O único monumento classificado é o Cruzeiro de Nossa Senhora da Conceição, erguido em 1787 na lugar do Cimo da Vila, onde se reuniam os conselhos de freguesia sob a administração do Juiz de Fora de Alfândega da Fé.
O único alojamento registado é a Casa da Fonte, antiga casa do guarda-florestal convertida em 2017. Quem aqui pernoita ouve o cão de guarda do Sr. Joaquim — o último pastor transumante que ainda sobe com as ovelhas até às pastagens de verão do Marão — e sente o cheiro a esteva que queima nas lareiras durante os 120 dias de fogos anuais que ainda resistem.