Artigo completo sobre Baçal: o balcão de pedra sobre o vale do Tua
Baçal, em Bragança, oferece miradouro sobre o Tua, igreja quinhentista, espigueiros de granito e ponte medieval. Aldeia transmontana a 674m de altitude.
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O eco dos sinos da Igreja velha atravessa o vale antes mesmo de se avistar a primeira casa. É um som que se agarra ao nevoeiro de Janeiro e roça as videiras-loucas que ainda tremem na varanda da Casa do Povo. Em Baçal, onde 460 almas se agarram a 28 km² de granito e medronho, o silêncio entre badaladas é tão denso que se pode ouvir o rio Tua ranger as pedras lá em baixo.
O balcão que ninguém fecha
Dizem que é o balcão de Trás-os-Montes, mas quem cá nasceu chama-lhe só "o cimo". Subi-lo ontem ao fim da tarde com o Joaquim do Cuco que vinha do campo às costas do burrico. Enquanto ele descarregava lenha de carvalho, o sol pôs-se atrás da serra e o vale encheu-se de um dourado que me fez lembrar o mel da minha avó - aquele que ela guardava em potes de barro cheios de cera e bicadas de abelha. O Tua parecia uma fita de cetim ao deitar-se, e do alto distinguiam-se as chaminés das casas que ainda fumavam - sinal de que alguém resistia.
Pedra que fala
Os espigueiros aqui não são de madeira como no Minho. São de xisto puro, com a porta tão baixa que o meu tio Chico tinha de se curvar para lá meter o milho - e era ele o mais alto da aldeia, com um metro e oitenta de tronco rijo de trabalhar a enxada. A ponte medieval aguenta-se de má vontade: no Verão passam por cima os tratores da Cooperativa, no Inverno leva-se os galgos do Zé Mário a banhar-se nos poços. O poço romano é mesmo romano - não é lenda. A água é tão fria que as mulheres deixavam lá as garrafas de vinho antes das festas para ficar como granito.
A casa onde o fumo não mente
Entra na cozinha da Dona Amélia e fica-se logo com a roupa a cheirar a chouriço. Ela cura-os durante três meses - "até a lua estar no quarto crescente pela terceira vez", diz. O presunto que me ofereceu no Natal tinha a gordura tão branca que parecia neve, e quando a cortei com a faca do meu avô desfez-se na boca como um suspiro. A sopa de castanhas leva sempre um ramo de louro do pé que cresce na cova onde o meu bisavô enterrou depois de voltar da guerra. "É para o ano saber ao ano", explica ela, mexendo a panela com a colher de pau que tem 40 anos.
Festas que os netos ainda não inventaram
Em Maio, a procissão da Senhora da Ribeira sobe a ladeira tão devagar que se pode contar as pedras do calçamento. As velhas vão de chapinha na cabeça e os homens de camisa engomada - mesmo que depois a guardem debaixo da cama até ao ano que vem. Em Dezembro, quando o frio corta como navalha, acende-se a lareira da Casa do Povo e começam os cântaros. O António da Tina ainda se lembra de quando a Maria da Conceição - essa que morreu com 93 anos e todas as cantigas na ponta da língua - puxava um desgarrado que fazia chorar os cães. Hoje são os netos que vêm de Paris e de Lisboa gravar tudo no telemóvel, mas não sabem a letra toda.
Quando a noite cai de vez e o nevoeiro sobe do rio, o lobo uiva mesmo. Não é o som que se ouve nos documentários - é mais rouco, mais cansado, como quem já viu demasiadas armadilhas nos caminhos. E aqui em Baçal, entre o uivo e o silêncio que vem depois, ainda se pode ser humano sem pressa.