Artigo completo sobre Pereiros: Lagares de Pedra e Socalcos do Douro
Freguesia vinhateira a 370 metros sobre o rio, onde o azeite corre grosso e a vinha velha resiste
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O azeite escorre grosso e verde-dourado da prensa de madeira, enchendo o lagar com um perfume que mete fome a qualquer um. É outubro em Pereiros, e o rodízio centenário gira devagar como quem não tem pressa nenhuma - aliás, nunca teve. Fora, o sol da tarde acende os socalcos já despidos, deixando só a geometria dos muros que sobem a encosta como se fossem escadas para o céu.
A freguesia que vive lá em cima
Trezentos e setenta metros acima do Douro, Pereiros distribui os seus 151 habitantes por umas 60 casas que parecem ter-se perdido no meio da vinha. A aldeia vem dos tempos da Idade Média, quando dependia da antiga vila de Ansiães - que depois se mudou para Carrazeda em 1734, mas isso é outra história. O nome vem das pereiras que por aqui abundavam, mas hoje é a vinha que manda. No coração do Alto Douro, cada metro quadrado foi conquistado à pedra: socalcos xistosos feitos com paciência de santo, gereração após geração.
Entre a moenda e a vindima
O lagar comunitário abre só durante a campanha - outubro e novembro - e é nessa altura que se vê movimento. Quem entra leva com aquele vapor oleoso na cara, ouve o ranger do rodízio e, se tiver sorte, come pão com azeite novo ainda a fazer cócegas na garganta. Em setembro é a vez da vindima: cestos às costas, suor misturado com mosto, e aquela vinha velha de 1927 que dá um lote anual de 400 garrafas. Tudo vendido a emigrantes que regressam e aos amigos de sempre - mais ninguém sabe que existe.
À mesa transmontana
Cabrito no forno de lenha, borrego Terrincho na brasa, salpicão e presunto de Vinhais com broa de milho. O queijo Terrincho vem acompanhado de doce de figo - combinação que parece estranha até experimentar. O vinho corre às dezenas, tinto como deve ser, e as refeições estendem-se até já não dar para ver as mãos à frente dos olhos.
Festas que trazem os ausentes
Começa setembro com a Festa de Santa Eufémia: missa, procissão e depois a sardinhada. A concertina toca até de madrugada e há sempre um velho que se lembra de danças que ninguém fazia há 30 anos. A 15 de agosto é a vez de Nossa Senhora da Assunção - dia de encontrar gente que não se via desde o ano passado. No domingo seguinte vai-se a pé até Carrazeda na romaria, cumprimentando meio mundo nos caminhos de xisto.
Esses mesmos caminhos sobem e descem entre muros secos, e de repente abrem-se sobre o Douro lá em baixo. Ao longe, uma águia desenha círculos no ar. O silêncio só é quebrado por um sino qualquer e pelo vento nas amendoeiras.