Artigo completo sobre Pinhal do Norte: pinhais, xisto e memórias no vale do Tua
Aldeias de pedra, castelo em ruínas e lagaretas na rocha entre os pinhais de Carrazeda de Ansiães
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O cheiro a resina aquece com o sol da tarde. Em Pinhal do Norte, o verde escuro das copas estende-se até onde a vista alcança, pontuado apenas pelo cinza dos muros de xisto e pelo branco irregular das casas baixas. Aqui, a 502 metros de altitude, o ar traz algo mais do que o aroma dos pinheiros: há fumo de lenha que escapa das chaminés, o perfume adocicado dos soutos quando o Outono chega, e sempre, como um rumor de fundo, o murmúrio das ribeiras que descem em direcção ao Tua.
O granito que guarda memórias
No topo de um relevo cónico, as ruínas do Castelo de Pinhal do Norte resistem ao abandono. Não há torreões nem ameias completas, apenas pedras soltas e muros baixos que testemunham um castelo medieval documentado desde 1285, quando Dom Dinis confirmou foral à vila. É um lugar silencioso, onde o vento assobia entre os blocos de granito e o olhar se perde sobre o vale. Mais abaixo, a Igreja de Nossa Senhora das Neves ergue-se no centro da aldeia, com o seu portal manuelino desgastado. Dentro, a talha dourada dos retábulos contrasta com a simplicidade exterior, e no tecto os caixotões pintados narram vidas de santos em cores desbotadas pelo tempo.
Santrilha e a lagareta na rocha
A 3 km da sede, Santrilha guarda a Capela de São Tomé e um património que quase desapareceu: uma lagareta escavada directamente na rocha granítica, junto ao largo. A estrutura é pequena, quase imperceptível para quem passa apressado, mas as marcas do desgaste contam séculos de azeitonas esmagadas, de azeite escorrendo para a bacia inferior. Era aqui que, até aos anos 60, as 30 famílias da localidade vinham prensar as azeitonas das poucas oliveiras que resistiam ao clime rigoroso. A imagem da Senhora dos Remédios vigia este lugar onde o trabalho antigo deixou a sua marca física no território.
Felgueira, aldeia suspensa
A aldeia de Felgueira parece congelada numa fotografia antiga. Das 40 casas de xisto que existiam nos anos 50, restam agora umas 15 em pé, com as portas de madeira fechadas e os pátios invadidos por silvas. Quase deserta — habitam-la hoje dois casais idosos — conserva uma arquitectura que noutros lugares já desapareceu sob o cimento: varandas de madeira, corredores exteriores, fornos comunitários que já não fumegam desde que a padaria deixou de funcionar em 1982. O silêncio aqui é denso, quebrado apenas pelo canto dos melros e pelo farfalhar das folhas secas.
O sabor da terra fria
Nas mesas de Pinhal do Norte, o Queijo Terrincho DOP cheira à pastagem de altitude onde pastam as ovelhas churras da raça local. O Cabrito Transmontano assa lentamente no forno a lenha, temperado com alho e colorau do Marco, enquanto o Salpicão de Vinhais pende das traves na adega de quase cada casa, curando ao fumo do carvalho. O azeite novo, quando há — pouco, muito pouco — vem do lagar cooperativo de Carrazeda, espesso e amargo como o clima. São sabores que não pedem pressa, que exigem mastigação lenta: o fumado da chouriça de porco bísaro, a acidez do queijo de cabra que ainda fazem duas senhoras em Caravela, o travo forte das azeitonas de conserva que vêm de Trás-os-Montes.
Vistas sobre o Tua
De Brunheda, o olhar desce em socalcos até ao Vale do Tua, onde as vinhas — agora poucas, muito poucas — desenham linhas horizontais na encosta. A paisagem muda com a luz: dourada ao amanhecer, violeta ao crepúsculo, quase monocromática quando o nevoeiro sobe do rio. É aqui, nesta transição entre a Terra Fria e a Terra Quente Transmontana, que Pinhal do Norte encontra o seu equilíbrio — entre o verde dos pinhais que deram nome à freguesia em 1926 e o ocre dos socalcos abandonados, entre o frio das manhãs e o calor seco das tardes de Agosto.
Ao fim da tarde, quando as sombras se alongam entre os troncos, o perfume da resina intensifica-se. Fica na roupa, na pele, na memória — cheiro a Norte, a altitude, a lugar onde, entre os 214 habitantes que restam, o pinhal ainda dita o nome e a maneira de ser.