Artigo completo sobre Poiares: 8 habitantes por km² na Terra Quente
Aldeia transmontana a 473 metros, entre amendoeiras, xisto e o silêncio do Douro Internacional
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O sol da Terra Quente bate na calcada irregular e devolve o calor em ondas quase visiveis. Poiares estende-se sobre uma elevação de 473 metros, onde o silêncio se mede pelo intervalo entre o canto de um pássaro e o eco distante de uma porta que se fecha. Trezentos e vinte e sete habitantes partilham estes 40 quilómetros quadrados com amendoeiras, oliveiras e o vento que sobe do vale do Douro Internacional.
A geometria do sossego
A densidade populacional aqui é um número quase abstracto: oito pessoas por quilómetro quadrado. Significa isto que se pode caminhar meia hora sem cruzar vivalma, apenas o rasto de fumo de uma chaminé ao longe e o cheiro a lenha de carvalho que tempera o ar. As casas agrupam-se em núcleos de xisto e granito, com portadas de madeira pintadas de azul-desbotado ou verde-musgo, cores que o sol transmontano vai comendo devagar.
Dois monumentos classificados como Imóvel de Interesse Público marcam a paisagem construída — a Igreja de São João Batista e o Cruzeiro do Calvário. Não há placas turísticas a cada esquina. Há o peso da pedra lavrada, a espessura das paredes, a sombra fresca no interior de edifícios que resistiram a séculos de Invernos rigorosos e Verões abrasadores.
O que se come, o que se guarda
A gastronomia aqui não é performance — é substância. Queijo Terrincho DOP, de leite de ovelha da raça churra, com uma acidez que corta limpa na boca. Cabrito Transmontano DOP, assado em forno de lenha até a pele estalar. Amêndoa Douro DOP, colhida nos soutos que pontuam as encostas, torrada ao sol antes de ser guardada em sacos de linho. Mel da Terra Quente DOP, espesso e âmbar, com travo a rosmaninho e esteva. E a Azeitona de Conserva Negrinha de Freixo DOP, pequena, carnuda, curada em salmoura durante meses.
Não há restaurantes de carta extensa. Há mesas onde se serve o que há, consoante a estação: no Inverno, rojões e chouriça do fumeiro; na Primavera, borrego com batatas ao forno; no Verão, saladas de tomate com azeite que escorre pelo prato.
Entre a serra e o rio
O Parque Natural do Douro Internacional fica a 15 minutos de carro. O vale escavado pelo Douro desenha a fronteira entre Portugal e Espanha, e daqui de cima, nos dias claros, vê-se a linha sinuosa da água a brilhar como metal polido. O ar é seco, quente, carregado do perfil aromático da terra calcária e do tomilho que cresce entre as fendas das rochas.
A festa dos Sete Passos interrompe, uma vez por ano, a cadência lenta da aldeia. Procissão, reza cantada, incenso misturado com o cheiro a petardos — e depois o silêncio regressa, mais denso.
Ao crepúsculo, o céu sobre Poiares incendeia-se em laranjas e roxos profundos. As cigarras calam-se de súbito. Fica o murmúrio do vento nas amendoeiras e o ranger de um portão de ferro. É tudo o que se ouve — e é mais do que suficiente.