Artigo completo sobre Amendoeira: quando as flores ditam o nome da terra
Freguesia de Macedo de Cavaleiros onde amendoeiras em flor pintam vales a 772 metros de altitude
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A manhã tira o cobertor ao nevoeiro como quem descobre a toalha da mesa de café. De repente, vêem-se as amendoeiras todas: um mar de guardanapos abertos sobre a serra. Em Fevereiro, a coisa é tanta flor branca e rosada que parece que alguém deitou açúcar pela janela — um desperdício bonito que só dá fruto lá para Agosto, quando o sol já queimou o capacete verde ao caroço. É este excesso de amendoeira que baptizou a terra; o nome oficial veio depois, em 1847, quando o papel burocrático decidiu que já chegava de andarmos às arrecuas.
Entre o xisto e a água
Amendoeira fica a 772 m, o suficiente para a ressaca durar mais tempo. O xisto é aquele pão preto que ninguém come, mas aqui serve de parede. Mais abaixo, a albufeira do Azibo parece uma tampa de esquentador mal posta: não se espera tanta água num sítio onde os pobres sapatos trazem sola de cartão. Mesmo assim, as garças lá vão à pesca, os patos-reais fazem o golfe deles, e no espelho da barragem as amendoeiras fazem-se gémeas — uma fábrica de duplicados que até o Sr. Costa do café admira.
Os trilhos são como as conversas do tio Adelino: começam no olival e acabam numa história da guerra. No fim de cada caminho há um muro onde se sentam as andorinhas a conversar mal das gentes. A aldeia tem 400 residentes, o que dá para encher três autocarros e meio — ou um bar de futebol no domingo, com adeptos para lá e para cá.
Fumeiro e tradição
Nas casas com telhados que ainda sabem a estopa, o fumeiro é o armário que nunca fecha: chouriça de Vinhais e salpicão pendem como paletós de homem que não foi ao casamento. A carne fica com aquela cor de moeda antiga e o cheiro que mete conversa aos cães. Na mesa, o cabrito vai ao forno como quem entra na praia em Agosto — devagarinho, para não levar com a onda. A batata é da terra, regada com azeite que o vizinho faz na lagar e que, se for bom, até o pão se queixa de inveja.
Para a sobremesa, a castanha e a amêndoa vão ao bolso do doce, o mel escorrega que nem promessa de político, e o queijo Terrincha fecha o assunto como o cisco no olho: não dá para ignorar. Puxa-se um cálice do vinho que o ano guardou, e a conversa aquece mais depressa que a lareira.
Calendário de fé
Santo Ambrósio e São Pedro são os dois dias em que a aldeia engorda: os emigrantes chegam de França como encomendas da Natália, os netos trazem sotaque de Paris e os avós ainda perguntam se há quem venda pão em síliço. As procissões descem a rua estreita como fila do pão na quarta-feira, o andor abana que nem carro de choque, e depois há bifanas e música na praça até a bateria do sino pedir descanso. São dias em que se prova que 400 pessoas cabem em três mesas de 50 metros — desde que ninguém leve a cadeira de vez.
Quando o sol se põe e a hillside fica cor de marmelada, o cheiro a terra molhada mistura-se com a fumaça das lareiras. Percebe-se então que Amendoeira não é lenta por teimosia: é que aqui o relógio marca a hora das amendoeiras, e elas nunca apressaram ninguém.