Artigo completo sobre Cortiços: terra de xisto na Albufeira do Azibo
Freguesia transmontana de 237 habitantes entre o Geopark e produtos DOP de Trás-os-Montes
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A luz da manhã demora-se nos 475 metros onde Cortiços se aguenta, freguesia que respira com os 237 habitantes que ainda cá ficaram. O silêncio não é ausência — leva o bulício da levada, o ranger da porta do Toninho, o passo arrastado da dona Amélia que já não vê bem as pedras. Quando o vento vem do vale, traz o cheiro da terra que o Adão ainda virou ontem e a lenha que o Zé guardou para o Inverno.
A pedra e a água que nos moldaram
Cortiços mete-se pela Albufeira do Azibo como quem entra na própria casa. A água espelha o céu e os xistos contam histórias que o Geopark veio pôr nome, mas que os velhos já sabiam de cor. Os trilhos não são para turista fazer desporto — são onde o pai do Joaquim ia buscar as cabras, onde a mãe daquela foi buscar água à fonte. Com menos de dez pessoas por quilómetro quadrado, o olhor vai longe e as casas ficam pequenas na paisagem.
As festas que ainda nos juntam
Dois dias no ano em que o café do Cheínho fica pequeno: Santo Ambrósio e São Pedro. A capela enche-se como antigamente, o adro serve para se saber quem está vivo e quem já foi. Os enchidos que o António foi curando desde Dezembro desaparecem à mesa do fundo, onde se juntam os nove putos que ainda cá andam com os 116 que já passaram dos 65. O sino toca e o eco demora a morrer no vale — assim como as histórias que se vão contando.
O que a mesa nos dá
Não é preciso etiqueta para isto ser DOP. O azeite escorre grosso sobre o pão que a D. Lourdes ainda vai buscar ao forno. A Terrincho marca o dente e deixa sabor que perdura mais que a conversa. A chouriça de Carne de Vinhais não é para comer depressa — pede um golito de vinho tinto e tempo para saborear. A castanha estala no fogão da salamandra como estalava na casa da avó. Cada coisa tem o nome do sítio donde vem, porque aqui a terra ainda sabe a que veio.
Ficar é que é difícil
Caminhar por Cortiços é ver portas fechadas que se abrem só no Verão, quando os filhos vêm de Lisboa. Mas há resistência que não se mede em estatísticas: é a horta do Sr. Domingos feita à régua, é o olival que o neto do Manuel prometeu não deixar morrer, é a fumaça que sobe da chaminé da dona Alice às sete da tarde. Cada gesto — abrir a cancela, regar a vinha, atear a lareira — é um "aqui estou eu" que ecoa mais forte que o abandono.