Artigo completo sobre Corujas: fumeiros e xisto na encosta de Macedo
Corujas, em Macedo de Cavaleiros, mantém viva a tradição dos fumeiros e produtos certificados de Trás-os-Montes numa aldeia de xisto a 668 metros.
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O cheiro a lenha de carvalho mistura-se com o aroma a chouriça no fumeiro. Em Corujas, a 668 metros de altitude, o fumo sobe devagar das chaminés, desenhando linhas verticais contra o céu transmontano. Aqui, no concelho de Macedo de Cavaleiros, as casas de xisto escuro agarram-se à encosta como se sempre ali tivessem estado — e talvez tenham. São 143 habitantes distribuídos por quase mil hectares de terra, onde o silêncio pesa tanto quanto a pedra.
O ritmo dos que ficam
A matemática é simples e dura: oito crianças, sessenta idosos. As ruas conhecem sobretudo o passo lento de quem já não tem pressa, o arrastar de chinelos na calçada irregular, o murmúrio de conversas à porta que se repetem há décadas. Mas há uma teimosia nesta permanência, uma recusa em deixar que o lugar se transforme apenas em memória. Os fumeiros continuam activos, as hortas continuam cultivadas, os cães continuam a ladrar quando alguém passa.
Entre Santo Ambrósio e São Pedro
Duas festas marcam o calendário: Santo Ambrósio, a 7 de dezembro, e São Pedro, a 29 de junho. Nessas ocasiões, Corujas multiplica-se — os que partiram voltam, os pátios enchem-se de vozes, as mesas alongam-se debaixo das parreiras. É quando os enchidos de Vinhais — chouriça de carne, salpicão, presunto — saem dos fumeiros e chegam aos pratos, acompanhados de batata de Trás-os-Montes e regados a vinho da região. O cabrito transmontano assa devagar, temperado apenas com sal grosso e alho, enquanto o azeite de Trás-os-Montes corre generoso sobre o pão caseiro.
Terra de certificações
Esta é terra de produtos com nome próprio e denominação protegida. O queijo terrincho DOP, de leite de ovelha da raça churra da Terra Quente, tem uma acidez característica. O mel DOP da Terra Quente carrega o sabor das urzes e dos castanheiros. A castanha da Terra Fria IGP, quando chega o outono, crepita nas braseiras. São produtos que não mentem — cada um traz no rótulo a geografia exacta de onde vem, a altitude, o solo de xisto, o clima de Invernos rigorosos e Verões abrasadores.
No coração do Geoparque
Corujas insere-se no Geopark Terras de Cavaleiros, território reconhecido pela UNESCO em 2006 pela sua geodiversidade. A poucos quilómetros, a Paisagem Protegida da Albufeira do Azibo oferece um contraste: água espelhada onde antes havia só terra seca, praias fluviais que no Verão atraem famílias. Mas aqui, na freguesia, prevalece a austeridade da montanha transmontana — vales encaixados, linhas de cumeada recortadas, pedra à vista.
O vento da tarde traz o sino da igreja de Santo Ambrósio, que bate as horas para quem ainda as conta. No adro, três homens conversam encostados ao muro, as mãos nos bolsos, os bonés puxados sobre os olhos. Não dizem nada de especial — falam do tempo, da sementeira, de um tractor avariado. Mas é nesse murmurar quotidiano, nessa persistência discreta, que Corujas continua a existir: sem espectáculo, sem promessas, apenas com a densidade silenciosa de quem resiste.