Artigo completo sobre Lamalonga: onde a água batiza a terra transmontana
Igreja barroca, castanheiros centenários e festas de São Pedro na aldeia do rio lento
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A água corre devagar no leito do rio Lamalonga, um fio discreto que atravessa terras onde ainda se encontram lajes de moinho e canecos de barro negro. O som é constante mas quase imperceptível — abafado pelo vento que varre os soutos e faz ranger os portões de madeira nas eiras desertas. Aqui, a 448 metros de altitude, o ar tem densidade própria: húmido nas manhãs de inverno, carregado de resina nos dias quentes de Junho quando a aldeia se prepara para a Festa de São Pedro.
A etimologia gravada na água
Lamalonga — "lamalunga", lugar de lambedor — traz no nome a memória do curso de água que deu sentido ao povoamento. As Inquirições de D. Afonso III, no século XIII, já registavam a freguesia, mas os vestígios arqueológicos empurram a ocupação para trás, até ao Império Romano. Não há castelos nem pontes monumentais, apenas a continuidade discreta de quem ficou. A comarca mudou de mãos: Bragança em 1839, Mirandela em 1852, Macedo de Cavaleiros desde 1862. A aldeia adaptou-se a cada mudança administrativa sem alterar o ritmo das estações.
Barroco transmontano e missas de verão
A Igreja Matriz de Nossa Senhora dos Reis ergue-se no centro da aldeia, fachada de pedra nua pontuada por elementos barrocos no interior — talha dourada, imagens de santos de olhar fixo, o cheiro a cera e incenso que persiste mesmo quando as portas estão fechadas. Duas festas religiosas estruturam o calendário: Santo Ambrósio e São Pedro, esta última a 29 de Junho, feriado municipal. As procissões saem devagar, acompanhadas de música tradicional e do arrastar de chinelos na calçada irregular. Depois vêm as mesas compridas, o fumo das brasas, o ruído metálico das panelas de ferro.
Castanha, queijo e enchidos da Terra Fria
A gastronomia de Lamalonga não inventa — afirma. O souto comunitário fornece Castanha da Terra Fria DOP, apanhada no outono quando o chão se cobre de ouriços abertos. Nas cozinhas de lareira, o fumeiro negro deixa cair gordura sobre o fogo aberto — borrego assado no forno de lenha, feijoada que fede a alho e louro dias antes de se servir. Sobre a mesa: azeite novo que arde na garganta, batatas de Cascata que sabem à terra onde cresceram, cabrito que se desfia sob o garfo. O Terrincho amanteigado, o queijo de cabra que fede a bode e a erva. Para acompanhar: chouriça de carne que estala na boca, linguiça fumada que mancha os dedos, presunto que se corta em transparências. Ao fim, pão-de-ló húmido e folhadinhos de ovos que se desfazem na boca — receitas que vieram de algum mosteiro distante e se fixaram nas cozinhas locais.
Albufeira do Azibo e caminhos de água
A Paisagem Protegida da Albufeira do Azibo fica a poucos quilómetros, espelho de água onde se praticam canoagem e caminhadas por trilhos sinalizados. Mas é no rio Lamalonga que se encontra a alma do lugar — serpenteando entre terras agrícolas e soutos, acompanhado por caminhos rurais onde se pedala sem pressa. A freguesia integra o Geopark Terras de Cavaleiros, território de xistos antigos e relevos ondulados que contam histórias geológicas de milhões de anos.
Os 339 habitantes de Lamalonga — 30 jovens, 137 idosos — ocupam 1697 hectares de densidade baixa e silêncio espesso. Quando a noite cai e as luzes das casas se acendem uma a uma, ouve-se o sino da igreja marcar as horas, depois o ladrar de um cão ao longe, depois nada — apenas o murmúrio contínuo do rio, sempre a mesma água, sempre diferente.