Artigo completo sobre Lombo: tambores de Entrudo e talha dourada em Bragança
Aldeia transmontana aos 487 metros guarda banco de sementes crioulas e castanha DOP certificada
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O som chega antes da imagem: o bater surdo de um tambor na tarde fria de Entrudo, ecoando entre as casas de granito. Grupos mascarados descem a rua principal de Lombo ao cair da tarde, pedindo o bolo do entrudo de porta em porta. O cheiro a lenha mistura-se com o fumo que sai das chaminés, enquanto o vento traz do vale o murmúrio do rio Sardoal. Aqui, a 487 metros de altitude, o relevo ondula em forma de lombo — lumbus em latim —, um esporão suave que domina a paisagem de soutos e oliveiras centenárias.
O peso do granito e da talha dourada
A Igreja de Santo Ambrósio ergue-se no centro da aldeia, nave única e frontão maneirista que guarda no interior um retábulo barroco em talha dourada. A luz da tarde entra pelas janelas altas e ilumina o ouro velho, acumulado desde o século XVIII. Na entrada da povoação, o cruzeiro de pedra do mesmo século exibe no capitel a cena da crucificação, esculpida em baixo-relevo. Mais acima, a Capela de São Pedro — ermida rural reconstruída em 1920 — aguarda a romaria de 29 de junho, quando os habitantes sobem com cestos de flores e petiscos para a missa campestre e o almoço na eira.
Sementes, castanhas e a memória do milho
Lombo mantém há mais de 60 anos um Banco de Sementes de Milho Crioulo, iniciativa comunitária que preserva variedades locais transmitidas de geração em geração. Em 2022, o souto da aldeia produziu a primeira castanha certificada DOP da Terra Fria em Macedo de Cavaleiros. Em outubro, o cheiro a castanha assada invade a praça, onde o fogareiro fumega e as cascas estalam sob os pés. O moinho de água no rio Sardoal — pedra e madeira gretada pelo tempo — ainda mói milho mediante marcação na Casa do Povo, demonstrando a engenharia transmontana que aproveitava a força da corrente.
Posta, chanfana e o peso do barro
Na cozinha, a materialidade é tão densa quanto no campo. A posta mirandesa grelha sobre brasas de sobreiro, acompanhada de batata de Trás-os-Montes IGP e grelos salteados em azeite DOP. A chanfana de cabrito transmontano coze lentamente em panela de barro, o vinho tinto e o colorau tingindo a carne de vermelho escuro. A chouriça de Vinhais IGP assa à brasa, servida com broa de milho ainda quente. Nas sobremesas, o doce de abóbora leva mel da Terra Quente DOP, denso e dourado como o retábulo da igreja.
O trilho, o Poço das Bruxas e o céu sem luz
O Caminho do Sardoal desenrola-se ao longo de oito quilómetros circulares, atravessando mata ripícola, levadas medievais e moinhos abandonados. A Paisagem Protegida da Albufeira do Azibo fica a seis quilómetros, permitindo observação de aves aquáticas e aluguer de canoa. No rio Sardoal, o trecho conhecido como Poço das Bruxas guarda a lenda das meigas que lavavam lençóis à meia-noite. À noite, o céu abre-se sem poluição luminosa — classificado Dark Sky pelo Geopark Terras de Cavaleiros —, e o telescópio disponível mediante reserva revela constelações que a cidade esqueceu.
A aldeia não tem semáforos nem rotundas. O trânsito regula-se por um cruzeiro em lombo de burro, onde o granito polido pelos pneus brilha ao sol. Quando o sino de Santo Ambrósio toca às seis da tarde, o eco desce o vale e perde-se entre os castanheiros, levando consigo o peso exacto de trezentos e quatro habitantes e sessenta anos de sementes guardadas.