Artigo completo sobre Morais: aldeia transmontana aos 625 metros de altitude
Freguesia de Macedo de Cavaleiros onde os soutos, olivais e tradições rurais resistem ao tempo
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A luz da manhã raspa os cumes dos soutos de castanheiro e derrama-se sobre os olivais que descem em socalcos até ao vale. Aos 625 metros, Morais acorda com os melros a discutirem nos telhados e o rego da fonte a transbordar. O cheiro a terra molhada mistura-se com o fumo azulado que sobe das chaminés - alguém atirou pinho seco à lareira.
Lugar de morada
Dizem que o nome vem do latim moraria. Talvez. O que sei é que aqui se fica: os caminhos de xisto estão afundados nas pegadas de quem nunca partiu. Desde que o rei D. Dinis doou estes coutos à Ordem de Cristo, passaram-se sete séculos e ainda se planta milho nos mesmo campos. Hoje somos 530 segundo o recenseamento, mas na véspera da romaria são milhares - os filhos que emigraram para o Luxemburgo voltam com matraquilhos e mala cheia de Nesquik para os netos.
Entre festas e devoções
Em junho, a rua principal fica tão apertada que a procissão de São Pedro quase não passa. As mulheres preparam feijoada desde as cinco da manhã no pátio da igreja, mexendo tachos de ferro com pás de madeira. À noite, quando os bombos calam, ainda se ouvem os velhos a cantar ao desgosto no café "O Céu", onde o Agostinho serve bicas em copos de vidro e guarda as garrafas de aguardente atrás do balcão de mármore rosa.
Mesa transmontana
O azeite é amarelo-torrado e deixa sedoso na boca - prova na quinta do Zé Manel, que ainda vai ao lagar de Morais com os bidões de trinta litros. A batata é pequena, amarela, cheia de terra negra que se agarra à unha. Comi-a cozida com grelos e toucinho fumado num prato de barro rachado, sentada no degrau de uma porta onde uma gata malhada ronronava contra a minha perna.
No coração do Geopark
O trilho do Azibo começa atrás do cemitério, onde a terra tem cheiro a crisântemos secos. São quatro quilómetros a descer entre muros de pedra onde crescem figos-da-india - leva sandálias, porque o xisto escorrega. Na curva do souto abandonado, o Silvestre mostrou-me onde os rapazes escondiam os motores das motorizadas durante a guerra colonial. A albufeira aparece de repente, num rasgão de luz entre os carvalhos-negros.
Experiências ao ritmo da terra
Venha em Outubro, quando as castanhas saltam na grelha do Mercado Mensal e o ar fica doce a fumo. Leve uma saca vazia - os agricultores vendem logo à saída da missa das onze, ainda com terra nos umbigos. Mas venha cedo: às treze horas fecha-se tudo, porque o almoço é sagrado e a sesta também.