Artigo completo sobre Peredo: aldeia transmontana junto à albufeira do Azibo
Freguesia de xisto e água integrada no Geopark Terras de Cavaleiros, com menos de 200 habitantes.
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O sol da manhã rasga o nevoeiro sobre a albufeira do Azibo e revela, na margem oposta, o casario disperso de Peredo. A luz pousa devagar sobre os telhados de telha velha, sobre os muros de xisto que separam leiras minúsculas, sobre a superfície imóvel da água. Aqui, a 535 metros de altitude, o silêncio tem peso — apenas quebrado pelo grito distante de uma garça-real que atravessa o reservatório em voo baixo.
Com 191 habitantes, Peredo é das menores freguesias do concelho de Macedo de Cavaleiros. Os números dizem o óbvio: há mais de setenta pessoas acima dos 65 anos, catorze crianças, e um quotidiano que se organiza ao ritmo das estações e das tarefas da terra. Mas esta aparente quietude esconde uma pertença geológica notável — Peredo integra o Geopark Terras de Cavaleiros, território reconhecido pela UNESCO pelo seu património de rochas antigas, dobras tectónicas e minerais que contam milhões de anos de história terrestre.
A água como centro
A albufeira do Azibo mudou tudo. Antes da barriga de água, os campos de milho iam até onde hoje as ondas beijam a margem. Agora, o reservatório trouxe visitantes de fim-de-semana, trilhos sinalizados e miradouros de onde se avista a mancha azul recortada entre colinas de carvalho e sobreiro. Nos dias de Verão, o calor acumula-se na pedra dos caminhos rurais; no Inverno, o frio húmido sobe do lago e infiltra-se pelas frestas das casas. Quem percorre os trilhos pedestres junto à margem cruza-se com patos-reais, corvos-marinhos e, se tiver sorte, com o voo rasante de uma águia-pesqueira.
Chouriça, queijo e castanha
A gastronomia de Peredo não se inventa — herda-se. Na mercearia da D. Rosa, ainda se pesa o queijo Terrincho na balança de ferro e se corta o presunto à faca. Durante as festas, os tabuleiros trazem chouriça de carne de Vinhais, salpicão fumado, fatias grossas de presunto bísaro, queijo de pasta amarelada e aroma intenso. Há também cabrito transmontano assado em forno de lenha, batata de Trás-os-Montes IGP cozida com a pele, azeite DOP que escorre dourado sobre o pão de milho. No Outono, as castanhas da Terra Fria assam em fogueiras improvisadas junto aos largos, e o cheiro adocicado mistura-se com o fumo de lenha de carvalho.
O calendário das procissões
A Festa de Santo Ambrósio e a Festa de São Pedro mantêm viva a memória colectiva. Nos dias de celebração, a aldeia enche-se de filhos e netos que regressam de longe. As procissões percorrem as ruas estreitas, os andores oscilam ao ritmo dos passos, as vozes sobem em ladainha enquanto os sinos repicam sem pressa. Depois, no adro da igreja, há comes e bebes, conversa ao sol, reencontros que duram até o anoitecer trazer o frio de volta. A velha Igreja de Santo Ambrósio, com as suas paredes grossas de pedra, guarda séculos de baptismos e casamentos nas paredes.
Ao crepúsculo, quando a última luz pousa na superfície da albufeira, Peredo volta ao seu compasso habitual. Resta o eco de uma porta que se fecha, o ladrar distante de um cão, o rumor quase imperceptível da água contra a margem de xisto. E a certeza de que, aqui, a terra e a água se conhecem há tanto tempo que já não precisam de palavras.