Artigo completo sobre Salselas: sino barroco e fumeiro no planalto transmontano
Salselas, Macedo de Cavaleiros, Bragança: aldeia transmontana a 586m de altitude com igreja barroca, gastronomia IGP e proximidade à Albufeira do Azibo.
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O som chega antes da visão: o sino da Igreja de Santo Ambrósio, que parece ter más intenções quando marca as oito da manhã. São 284 almas espalhadas por 36 quilómetros quadrados, o que dá para respirar sem bater com os cotovelos nos vizinhos — uma raridade nos dias de hoje.
Pedra que fala latim
Dizem que o nome vem do latim "salsus", de sal. Ou seja, há quem garanta que aqui houve salinas, mas o mais certo é ter sido um latifundiário a tentar impressionar os amigos. O que é facto é que desde o tempo de D. Afonso III — que andava a distribuir terras como quem oferece pastilhas — que Salselas aparece nos papéis. A igreja matriz ergue-se no meio da aldeia como quem manda, barroca do século XVIII, com aquele ar de quem já viu de tudo. À volta, as capelas de São Pedro e São Sebastião marcam terreno como postos de vigia.
Dezembro no fumeiro
Em dezembro, a festa de Santo Ambrósio transforma a aldeia. As ruas enhem-se de gente, há procissão e os accordions não descansam até de madrugada. Mas o verdadeiro espetáculo está nas cozinhas: o cabrito que roda no forno de lenha durante horas, a chanfana que fica tão preta que parece tinta, mas que depois se perdoa tudo no primeiro garfo. No fumeiro das casas — sim, porque aqui o fumeiro ainda é coisa séria — pendem salpicões e chouriças que não são para mostrar aos turistas. São para comer. Com pão caseiro e azeite que não precisa de rótulo chique para ser bom.
Água que guarda asas
A albufeira do Azibo é o que os americanos chamariam de "game changer". Desde os anos 80 que esta massa de água trouxe aves que antes só se viam nos livros e trilhos onde se pode caminhar sem levar com o barulho do mundo. A água é fria, mesmo no verão, mas ninguém se importa. Os locais dizem que é "revigorante" — código para "entra logo para sair mais depressa".
Entre granito e horizonte
Há dois sítios para dormir: um apartamento e um hostel. Não é New York, mas chega para quem quer fugir à confusão. O que se faz aqui é simples: caminhar até à albufeira ao amanhecer (leve café, o café da aldeia abre às oito), almoçar um cozido transmontano que sustenta até ao dia seguinte, e à tarde sentar-se no adro da igreja a ver o sol pôr-se. Não há muito mais, mas também não é preciso.
Quando o sino volta a tocar ao fim do dia, é o sinal de que pode ir para casa. Ou ficar. Salselas não pede nada — apenas não estrague o silêncio, que é o que aqui há de mais precioso.