Artigo completo sobre Talhas: xisto, olivais e 256 vidas em Trás-os-Montes
Freguesia de Macedo de Cavaleiros onde o silêncio se mede em hectares e a tradição cura nos fumeiros
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Al caer la tarde, cuando la luz rasante dibuja sombras largas en las fachadas de número impar de la Rua Direita, se oye la campana de la iglesia: un toque a las 19.30, casi tímido, que se pierde en el valle del Azibo. Después, otra vez, el silencio denso. Y el olor a humo de leña que sube de las chimeneas adosadas de la Rua do Poço.
A luz da manhã bate nas paredes de xisto da Rua do Castelo e ilumina a calcada irregular que sobe até à Igreja Matriz de Talhas. Em Talhas, o silêncio tem uma densidade própria — não é vazio, é preenchido pelo murmúrio distante da água que corre para a Albufeira do Azibo e pelo eco ocasional da porta do Café Cantinho do Zezé a fechar-se. Há um cheiro a lenha de sobreiro no ar, mesmo quando o sol já aquece as pedras do Largo Dr. José Macedo. É assim que o dia começa nesta freguesia de 256 habitantes, encostada aos 493 metros de altitude, onde os olivais descem suavemente até ao horizonte.
O peso dos números
Três crianças. Cento e quarenta e nove idosos. Os números dos Censos de 2021 contam uma história que se repete em Trás-os-Montes, mas aqui, nos 4380 hectares de Talhas, essa realidade ganha uma textura particular. A densidade populacional — menos de seis pessoas por quilómetro quadrado — não é uma estatística fria: é o espaço entre as casas, a distância que se percorre até encontrar alguém no caminho de terra que liga a Estrada Municipal 593 à Quinta do Oliveiral, o tempo que a voz leva a alcançar o vizinho.
Território de oliveiras e fumeiros
A terra aqui não mente. Produz o que o clima e o solo permitam, e fá-lo com uma teimosia transmontana que resultou em doze produtos certificados. O Azeite de Trás-os-Montes DOP nasce dos olivais da Herdade do Azibo e da Quinta das Cavadas, árvores antigas de troncos retorcidos que resistem ao frio de Janeiro. Nos fumeiros das casas da Rua da Igreja e da Rua do Picoto, pendem os enchidos protegidos — Chouriça de Carne de Vinhais PGI, Salpicão de Vinhais PGI, Presunto Bísaro de Trás-os-Montes DOP — curados pelo fumo lento da lenha de carvalho.
A Carne Mirandesa PGI e o Cabrito Transmontano PGI chegam às mesas no dia 29 de Junho, na Festa de Santo Ambrósio, acompanhados pela Batata de Trás-os-Montes PGI que, cozida com pele, revela uma textura amanteigada. O Queijo Terrincho DOP, produzido no queijal da cooperativa de Macedo de Cavaleiros, corta-se em fatias grossas. No Outono, a Castanha da Terra Fria PGI assa nas brasas do Largo da Feira, e o Mel da Terra Quente PGI adoça o pão caseiro do Forno da Dona Amélia.
Entre São Pedro e Santo Ambrósio
As festas — de São Pedro (último fim-de-semana de Junho) e de Santo Ambrósio (último domingo de Agosto) — são os momentos em que a freguesia se enche. Chegam os que partiram para Paris, Luxemburgo e Olhão, regressam vozes e passos às ruas. A Igreja Matriz de Talhas, construída em 1867 sobre uma capela medieval, abre as portas de madeira de carvalho, o adro enche-se, e por breves dias a densidade populacional multiplica-se. Depois, tudo volta ao ritmo habitual: o dos dias longos, do trabalho nas hortas junto à Ribeira do Teixeira, das conversas à porta do Minimercado da Tia Lúcia.
Paisagem protegida
A proximidade à Paisagem Protegida da Albufeira do Azibo (classificada em 1999) e a inserção no Geopark Terras de Cavaleiros (reconhecido pela UNESCO em 2015) colocam Talhas num território geologicamente singular. A albufeira, a 3,5 quilómetros do centro da freguesia, espelha o céu transmontano e oferece um contraste com a aridez dos meses de Verão. As quartzites do Ordovícico, com 480 milhões de anos, contam uma história que antecede qualquer presença humana na Serra de Bornes.